O Segredo da Educação

O segredo da educação da Yeshivá de Cotia

Uma entrevista com a equipe de rabinos sobre os princípios, as práticas e os desafios de nossa Yeshivá

A Yeshivá de Cotia, já em seu 34º ano letivo, mantém um legado especial no mosaico das instituições judaicas no Brasil. Fomos atrás da equipe de rabinos para trazer ao leitor segredos da sua linha educacional.

Poderia indicar os princípios educacionais que regem a equipe dos Rabinos da Yeshivá?

Equipe: Obrigado pela oportunidade de dividir nossos ideais de educação. Em primeiro lugar, queremos que os alunos admirem os educadores e os rabinos, e gostem deles. Se um aluno ama seu mestre, aumenta muito a chance de estar pronto a ouvir seus conselhos e seguir suas sugestões.

Olhando para o presente e para o passado, achamos que conseguimos chegar lá. Os laços de amizade e de carinho entre os Rabanim e os alunos são muito fortes, ultrapassam a sala de aula e extravasam para questões da vida, para a forma de olhar o mundo, a forma de pensar.

Como conseguir amor e admiração dos alunos numa escola com regras e disciplinas?

Amor se consegue com amor. Se o aluno sente que o educador se importa com ele de verdade e que está pronto a se dedicar e até se sacrificar pelo seu bem, ele acaba retribuindo com amor, respeito e apreço.

Mas, para conseguirmos amar cada aluno, devemos acreditar em cada um, apesar de seus defeitos e de suas caídas. Construir uma visão positiva de cada aluno, como se fosse nosso filho, é um trabalho interno de educador que exige muitas forças.

O bom educador vê em cada um uma grande alma, uma grande luz, que às vezes está enrolada e enroscada em alguns nós. É nosso dever ajudar o aluno, desamarrá-lo de seus obstáculos e revelar sua luz interna.

Com essa proximidade, as regras e a disciplina não ficam comprometidas?

Ao contrário. A relação amigável traz um bom-senso recíproco. Lógico que as regras devem estar claras. Existem linhas vermelhas que são intocáveis. Mas hoje está muito claro que se consegue educar muito melhor com um abraço e uma boa conversa do que com uma bronca e um castigo. É um equilíbrio delicado que todo bom educador deve ter.

Mas, quando o aluno sabe que você se importa e está pronto a se dedicar a ele, até as broncas e os castigos que recebe têm um gostinho mais doce e suave.

Quando vocês conseguem criar esse vínculo com os alunos?

Nossa equipe de rabinos mora no Campus da Yeshivá. Isso quer dizer dedicação 24 horas. Viver o dia a dia do aluno faz parte do cotidiano das famílias dos rabinos também. Isso abre um grande leque de convívio que acaba moldando o caráter dos estudantes.

Alunos que veem exemplos de Talmidei Hachamim que estudam, rezam, vivem, lecionam empolgados com o judaísmo, têm grande chance de ter sua chama interna inflamada por esse judaísmo e pelo amor à Torá. Ser um exemplo vivo da Torá em nosso dia a dia tem um impacto incalculável. Os alunos sabem, olham e sentem cada detalhe do comportamento de seus mestres. Devemos aproveitar essa curiosidade para transmitir nossas mensagens.

A Yeshivá conseguiu criar vários empresários, líderes comunitários, além de professores e rabinos que encabeçam instituições em várias partes do mundo. Qual a receita?

Idealismo e amor a Am Israel.

Idealismo significa sair do seu egocentrismo e encontrar causas grandes pelas quais vale a pena se dedicar. E mesmo no século XXI, na época do pós-modernismo e do individualismo, ainda se consegue turbinar o idealismo de nossos jovens.

Amor a Am Israel é se ligar ao passado majestoso, ao presente brilhante de nosso povo e acreditar em nosso futuro. É aderir à nossa tradição e aos grandes valores que Am Israel ensina à humanidade.

Sempre falamos que o tesouro que você encontrou deve ser repartido com os outros. Estudar para compartilhar.

O bom educador vê em cada aluno uma grande alma, uma grande luz, que às vezes está enrolada e enroscada em alguns nós

Os Bachurim da Yeshivá transmitem alegria. Qual é a fonte dessa alegria?

A Torá que estudamos com prazer. As Mitzvot que vivenciamos com satisfação. Os ideais que preenchem nossas almas com felicidade.

Na Yeshivá, convivemos com muito prazer e alegria na prática do judaísmo. Não é qualquer um que logo se conecta com a frequência certa, mas, quando consegue se conectar, o judaísmo se torna uma fonte de alegria e traz um sentimento de conexão com algo muito especial em nossas vidas.

É possível conciliar esse judaísmo com bons estudos na área laica?

É nosso desafio, e desde o início arregaçamos as mangas. O jovem tem muita energia e muito tempo ocioso. Estudar demais não faz mal a ninguém. Já temos gerações de Bogrim que não apenas entraram em ótimas faculdades como também conciliaram com maestria o estudo universitário (e depois o trabalho sério) com o estudo da Torá e a dedicação a causas comunitárias.

Mesmo após um dia cheio de estudo, a grande maioria dos alunos encontra um tempo para estudar a Torá de forma voluntária. Algo que se aprende na Yeshivá é gostar de estudar, curtir estudar.

Ao mesmo tempo, os alunos se preparam para o vestibular com seriedade, assiduidade e profundeza. Estamos certos de que essa carga é a que melhor prepara para os desafios verdadeiros da vida e para uma vida profissional de sucesso imbuída de ideias e vivência judaica genuína.