Relatos Do Holocausto

Concurso

RELATOS DO HOLOCAUSTO

Com o objetivo de incentivar a escrita e promover o respeito aos valores judaicos e à memória do povo judeu, no primeiro semestre o Or Yossef College organizou um concurso de redação. O tema foi “Relatos do Holocausto”. Todos os alunos participaram.

Os textos, inspirados em entrevistas com familiares, resgataram fatos e histórias marcantes, trouxeram relatos sensíveis e depoimentos comoventes. Recuperaram trajetórias que servem de alerta contra a intolerância e um ensinamento para a construção de um mundo melhor. O texto a seguir foi um dos premiados.

Azriel Strulovic Z”L

Anotações de um depoimento

“A verdade é que ninguém sobreviveu porque era forte.
Foi somente por sorte, por um milagre de D’us”

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MEIR KUPPERMAN (NETO DO SR. AZRIEL)

9º ano do ensino fundamental

Nasci em Munkacs, Ucrânia, em 18 de dezembro de 1930, no dia da terceira vela de Chanuká. Eu era o caçula da família. Meus pais se chamavam Avraham e Margot Strulovic. Eu tinha dois irmãos: Mordechai e Etel.

Meus pais eram judeus tradicionais, mas não muito ortodoxos. Vivíamos razoavelmente bem, ao contrário da maioria dos judeus de Munkacs, muito pobres. Não éramos seguidores do Munkatscher Rebe, mas meu pai costumava nos levar para ouvir suas Drushes (palestras), provavelmente nos dias festivos. E assim foi, até que os nazistas chegaram à nossa cidade, acho que em 1943, quando eu tinha 13 anos.

Na primavera de 1944, eles juntaram todos os judeus da cidade numa região onde estavam as sinagogas e demais instituições – uma espécie de gueto. Nós, que morávamos numa parte da cidade que não era predominantemente judaica, tivemos que nos mudar.

Em seguida, fomos todos levados a uma fábrica de tijolos nos arredores de Munkacs, de onde saíram os transportes em vagões de carga para os campos. Éramos aproximadamente 13 mil pessoas. Não me recordo, nem posso entender, como tantas pessoas foram transportadas em tão pouco tempo.

Chegamos a Auschwitz, na Polônia, onde se encontrava o complexo do campo de extermínio de Birkenau. Lá, fomos divididos entre homens e mulheres, adultos e crianças – foi a última vez que vi minha mãe e minha irmã. Eu fui separado de meu pai e do meu irmão, e mandado para o pavilhão 2, onde ficavam as crianças de 12 a 16 anos.

Após uma semana no campo, eu e um amigo da minha cidade combinamos uma troca: eu iria para o lugar do irmão dele (que estava no mesmo pavilhão que meu pai) e o irmão dele viria para o pavilhão onde estávamos, e então os dois irmãos ficariam juntos.

Uma vez por dia nos lavávamos numa fileira de torneiras, e foi numa ocasião dessas que trocamos de lugar. Graças a isso eu pude passar a guerra com meu pai e meu irmão.

Essa troca me ajudou ainda mais, pois no dia seguinte os nazistas nos transferiram para longe, para trabalhar na demolição do gueto de Varsóvia (onde havia acontecido um levante, em 1943). O objetivo era pegar o material de lá para ser usado em novas construções. Todos os que permaneceram no campo, pelo que eu soube, foram levados para as câmaras de gás.

Acervo pessoal

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Azriel Strulovic, quando estava no campo de concentração

Em Varsóvia, o kapo responsável por nós, um judeu provavelmente tcheco, logo percebeu que eu era novo demais e estava no lugar errado. Ele me perguntou quantos anos eu tinha, e respondi que tinha 17. Ele fingiu acreditar: me deixou ficar no grupo dos que iriam para os trabalhos forçados. Isso não era uma ocorrência comum, pois os kapos, transtornados pelo medo e pelo horror de tudo o que viram, não eram mais pessoas bondosas – haviam se transformado em animais selvagens, que batiam sem dó em outros judeus.

Foi também em Varsóvia que outro milagre me aconteceu. Certo dia, eu trabalhava perto do muro entre o gueto e o lado polonês, quando, de um dos prédios do lado polonês, uma senhora percebeu o meu estado e me jogou um pacote pela janela. Com a permissão do chefe da área, peguei o pacote, abri na frente dele e vi que continha pão, um pouco de manteiga e pedaços de carne. Aquilo para mim era um tesouro, pois muitos judeus já tinham morrido de desnutrição e de exaustão, causadas pelos trabalhos forçados.

Em outra ocasião, um dos carroceiros poloneses que levavam o material para fora do gueto me deu uma garrafa de bebida alcoólica, talvez vodca. Peguei a bebida e escondi comigo. Mais tarde, dei-a ao guarda responsável por nós, que em troca nos permitiu um descanso, poupando meu pai, que estava com o braço quebrado do trabalho forçado.

Ficamos trabalhando em Varsóvia por três meses. No fim do verão de 1944, os nazistas decidiram nos transferir para outra cidade, na própria Alemanha. Juntaram os judeus dos vários campos e nos deram a opção de escolher entre caminhar 120 quilômetros até nosso destino ou sermos mortos ali mesmo.

E assim começamos nossa caminhada. Durante o trajeto, muitos judeus morreram. De vez em quando era permitido enterrar esses mortos – depois, fiquei sabendo que os encarregados desse trabalho, muitas vezes, de tão famintos, arrancavam pedaços de carne dos cadáveres para se alimentarem. Sim, o ser humano, para sobreviver nas mais terríveis condições, se vê obrigado a se comportar como um animal.

“O ser humano, para sobreviver nas mais terríveis condições, se vê obrigado a se comportar como um animal”

Ao chegarmos à fronteira da Polônia com a Alemanha, fomos colocados em vagões de carga para sermos transportados por via férrea. Passei oito dias trancafiado em um desses vagões, a caminho de Dachau.

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contra a cerca de arame, morrendo eletrocutado.

Logo em seguida, fomos transferidos para outro campo, perto de Munique. Enquanto estávamos lá, meu pai adoeceu, como muitos outros. Veio a falecer durante o inverno de 1944.

Se todos os fracos morreram, a verdade é que ninguém sobreviveu porque era forte. Foi somente por sorte, por um milagre de D’us. Foi Ele quem colocou um pensamento positivo na minha cabeça, em um lugar onde só existia pensamento negativo. De que outra maneira eu poderia explicar minha sobrevivência, senão por uma sequência de milagres?

Chegando a Allach, o destino final escolhido pelos nazistas, começamos a trabalhar. Até que, em 30 de abril, acordamos sob um silêncio profundo: ninguém nos chamou para a contagem. O pátio estava vazio, com a exceção de um homem que, antes disso, já havia desistido de viver e jogara-se contra a cerca de arame, morrendo eletrocutado.

Com o campo em silêncio, saímos todos do barracão. Uma nova surpresa me aguardava: eu, agora um garoto de quase 15 anos, presenciei naquele dia a entrada dos soldados americanos no pátio – e o primeiro homem que vi foi um soldado negro. Para mim, foi um deslumbramento. Eu conhecia somente soldados brancos, no máximo pessoas de pele mais escura como os prisioneiros gregos. Mas… um negro? Nunca tinha visto.

Os soldados americanos chegaram com médicos e enfermeiras, e com uma recomendação que a todos pareceu maluca: não comer as comidas e conservas deixadas pelos alemães, comer somente aquilo que eles nos dessem.

Enlouquecidos pela fome, muitos ignoraram os conselhos dos americanos, lançando-se freneticamente sobre a comida deixada pelos nazistas em fuga. E assim encontraram sua morte. Depois de sobreviverem a maus tratos, à fome, aos trabalhos forçados, morreram logo após serem libertados, por exporem seus corpos enfraquecidos a uma quantidade exacerbada de alimentos gordurosos e calóricos.

Eu, como um menino obediente, segui as instruções dos soldados e, aos poucos, me recuperei.

Após alguns dias, fomos transferidos para um hospital de campanha, próximo ao campo em que estávamos. Ficamos lá por algumas semanas, até irmos para Pilsen, já na República Tcheca. De lá fomos em um caminhão para Praga, e finalmente de volta para Munkacs.

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