Projeto Chessed Lavotenu
Durante o mês de Elul, os alunos organizaram um projeto muito especial: saíram da rotina e passaram um tempo com pessoas amadas, seus avós, bisavós e outros parentes. Em grupos de amigos, ficavam à tarde na casa dos familiares, onde aproveitavam para conversar, ouvir histórias, comer comidinhas da vovó e cultivar o que temos de mais importante, a família. O texto ao lado faz referência a um desses momentos.
Uma entrevista com minha bisavó
Uma página rasgada que salvou vidas
26 | Or Yossef Yeshivá College
SHAUL LEVI
8º ano do ensino fundamental
Era uma manhã nublada de outono, em Paris. O dia era 25 de setembro de 1942 e meus trisavôs estavam em uma delegacia para enfrentar seu destino.
Sua jornada não começara ali, mas muitos anos antes, quando escaparam da Romênia, fugindo do comunismo que assolava aquela nação e perseguia os judeus. Meus trisavôs e seus três filhos foram para a França, em busca de uma certa tranquilidade, de modo que a quarta filha (minha bisavó, que ainda estava na barriga da mãe) pudesse nascer livre dos horrores que a família vinha enfrentando em sua terra natal.
Naquela manhã de 25 de setembro, a família foi arrancada de seu lar e levada brutalmente para a delegacia, sem qualquer ideia do que ia ocorrer. Meu trisavô, imaginando o pior, conseguiu mandar um cartão pedindo à sua nora, esposa de seu filho mais velho, que viesse buscar minha bisavó, salvando-a da deportação que levaria a família toda ao campo de concentração de Auschwitz, na Polônia.
A jovem de 22 anos veio ao encontro do sogro e levou minha bisavó, então com 2 anos, passando milagrosamente pelos guardas do exército alemão, dizendo ser ela sua filha.
Minha bisavó naquele dia perdeu sua mãe, seu pai, uma irmã, dois sobrinhos e um irmão de 12 anos. Teve que enfrentar, daquele momento em diante, uma vida muito difícil, tanto durante a guerra quanto no pós-guerra. Viveu em condições muito precárias, com o irmão, a cunhada e duas sobrinhas, em um apartamento de um cômodo, sem banheiro, enfrentando fome e escassez.
Alguns anos depois, sua cunhada a inscreveu numa ONG internacional que ajudava órfãos judeus a sobreviver – receberia uma ajuda mensal que seria a diferença entre comer ou não.
Minha bisavó me contou muitas histórias sobre aquele período. Umas delas me tocou muito. Por um milagre de D’us, um dia sua cunhada acordou assustada de um sonho e foi diretamente até a ONG para tirar o nome de minha bisavó do livro de registros. Quando chegou lá e pediu para ver os papéis, escutou soldados alemães subirem as escadas. Numa atitude rápida, arrancou a página do livro que continha o nome e o endereço de minha bisavó – e salvou assim pelo menos outras 20 crianças judias e as famílias que as abrigavam, pois estavam inscritas na mesma página. Uma página rasgada em prol da vida.
Para mim, foi um prazer muito grande conversar com minha bisavó sobre sua vida, sua história, e conhecer minha origem, além de poder desfrutar da companhia de uma sobrevivente dos horrores do Holocausto e saber como as coisas realmente ocorreram.
Or Yossef Yeshivá College | 27

