O Mestre Dos Mestres

Biografia

O mestre dos mestres

Rav Mordechai Shterenberg ZT”L

Professor do Rabino Raphael Shammah e de seus quatro filhos

R. ITZCHAK SHAMMAH E R. ELIAHU SHAMMAH

Rav Mordechai Shterenberg ZT”L nasceu em 23 de Iyar de 5708 (1º de julho de 1948), filho do Rav Moshe Sterenberg ZT”L, Rabino do assentamento de Kfar Pines.

Cresceu nessa cidadezinha até o falecimento de seu pai. Então mudou-se para Jerusalém, com a mãe e os três irmãos.

O JOVEM PRODÍGIO

Desde jovem, Moti – como era apelidado – se destacava no estudo de Torá. Seus amigos de infância contam que, nos concursos de decorar Mishnayot, sempre era o vencedor.

Fez o ensino médio na Yeshivá de Netiv Meir, junto ao famoso Rav Arie Bina. Lá estudava Chavruta com seu irmão gêmeo Amiel – ambos eram considerados gênios do Talmud. Aliás, essa parceria com o irmão acompanhou-o por toda vida: exceto durante um breve período, estiveram juntos em todos os lugares em que estudaram, ensinaram e dirigiram. Um dos alunos da época conta: “Ao chegar à Yeshivá, vi dois alunos bem parecidos, que à primeira vista não se gostavam muito. Sempre os via discutindo e gritando um com o outro. Depois descobri que eram as estrelas incontestáveis da Yeshivá, para quem perguntávamos qualquer coisa – e simplesmente este era o modo deles se aprofundarem: discutindo e gritando.”

No fim do colegial, se transferiu para a renomada Yeshivá Knesset Hizkiahu em Kfar Hassidim, liderada pelo grande Rav Hizkiahu Mishkovski ZT”L, um dos alunos remanescentes do histórico Rav Shimon Shkop. Os Shiurim do Rav Mishkovski eram complexos e profundos – por isso, apenas alunos do quarto ano podiam frequentá-los. Mesmo assim, em pouco tempo o jovem Moti recebeu permissão para entrar nesse Shiur, além de se tornar o Chavruta (dupla de estudo) do Rosh Yeshivá na preparação dos Shiurim. Foi nesse tempo que adquiriu seu estilo de estudo de Iyun (aprofundamento do Talmud).

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Após um ano e meio, decidiu se mudar para a Yeshivá de Merkaz Harav, em Jerusalém. Apesar do grande sucesso em Kfar Chassidim, ele se sentia mais atraído por um lugar que enfatizasse a educação para formação de pessoas Klal Israelim.

Mas Rav Mishkovski não abriria mão com tanta facilidade do jovem prodígio: prometeu que, se Mordechai ficasse em sua Yeshivá, viria a ser Rosh Yeshivá. Porém, a decisão já tinha sido tomada.

Um Rabino importante que estudou na época conta: “Alguns dos alunos mais velhos da Yeshivá fizeram uma Habure, grupo de estudo com revezamento, em que cada vez um integrante resumia o assunto estudado. Era impressionante ver que, apesar de todos serem experientes, Mordechai sempre levava uma conclusão que tinha aprendido das entrelinhas do Tossfot e que ninguém tinha percebido anteriormente. Porém, depois de mostrado, todos viam como sua conclusão era inegável.”

Com apenas 25 anos, foi escalado para dar aula naquela Yeshivá de Jerusalém. Em pouco tempo já lecionava na classe avançada, que apenas os alunos mais velhos e experientes conseguiam acompanhar.

Seu estilo de estudo era baseado no do Rav Shimon Shkop, que procurava entender a lógica interna das leis do Talmud. Rav Mordechai costumava dizer que não devemos analisar duas opiniões da Gmará como apenas duas opções. É preciso entender quais são os alicerces lógicos da primeira opinião, por que ela levou a uma determinada conclusão e considerou a outra errada. E só então passar para a outra opinião e praticar o mesmo processo. E devemos fazer o mesmo quando a Gmará levanta uma opção posteriormente descartada: é necessário entender a lógica de partida e a conclusão. Tal análise exige muita concentração e muita força.

Suas aulas eram profundas e longas (aproximadamente duas horas). Nelas, Rav Mordechai não passava apenas informação: ensinava aos ouvintes a maneira exata de refletir até chegar a conclusões.

Um dos grandes rabinos de nossa geração, Rav Baruch Mordechai Ezrachi Shlit”a – Rosh Yeshivá de Ateret Israel –, conheceu Rav Mordechai quando este estudava em Kfar Hassidim. Ele contou a seus alunos que desde aquela época via no jovem um futuro brilhante, e frisava que, a seus olhos, Rav Mordechai se tornou um dos maiores Maguidei Shiurim (professor de aprofundamento do Talmud) da geração.

Desde jovem lhe foram oferecidos postos importantes, como o rabinato de Netanya, mas ele sempre recusou: afirmava que seu lugar era na Yeshivá, educando e cultivando a próxima geração. Inúmeros rabinos de cidades, Dayanim (juízes) e educadores foram seus alunos.

Em 1997, Rav Mordechai fez parte de um grupo de rabinos que fundou a Yeshivá Har Hamor, onde exerceu o papel de Rosh Yeshivá junto ao seu irmão gêmeo, Rav Amiel Shterenberg Shlit”a. Mesmo nesse posto, seu principal papel sempre foi ministrar aulas.

Um dos seus alunos contou como se impressionava com a quantidade de aulas que ele dava. “Eu sempre saía esgotado dos Shiurim do Rav Mordechai, tamanhas eram a intensidade e a concentração necessárias para acompanhar as minúcias da Suguiá [trecho do Talmud]. E ficava ainda mais impressionado como, depois de 15 minutos, ele entrava para ministrar mais uma aula de outro assunto, com a mesma intensidade, como se fosse a primeira aula do dia. Além de Shiurim que dava em sua Yeshivá, ministrava semanalmente Shiurim para grupos de várias outras Yeshivot que vinham a Jerusalém. Às quartas, viajava a Tel Aviv para lecionar em três Yeshivot! Seis horas daquelas aulas tão intensas!”

Um acadêmico que frequentava semanalmente uma aula do Rav Mordechai conta: “Quando o observo, vejo alguém que está fazendo um doutorado a vida inteira, se concentrando continuamente na sua aula.”

Acervo Or Yossef Yeshivá College

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HUMILDADE

Todos que se encontraram alguma vez com Rav Mordechai com certeza se impressionaram com sua delicadeza, sua humildade e sua simplicidade, apesar de ensinar milhares de alunos.

No seu funeral, Rav Shlomo Amar Shlit”a – Rishon Letzion e atual Rabino-chefe de Jerusalém – contou que na primeira vez que visitou a Yeshivá de Har Hamor um senhor veio fazer perguntas a ele. A princípio, achou que se tratava de uma simples pessoa que ali estava. Apenas depois contaram que aquele era o Rosh Yeshivá, tal era a humildade e simplicidade desse grande homem.

Certa vez, um aluno de outra Yeshivá que não o conhecia pegou carona com ele. Quando perguntou o que Rav Mordechai fazia na vida, este respondeu: “dou aula de Mishnaiot.” A verdade é que dava aulas aprofundadas de Mishnaiot, mas também dava as aulas mais fantásticas de Talmud.

Muitos alunos viam nele um apoio insubstituível para pedir conselho. Sentiam que estavam falando com um grande homem que os olhava com compaixão e conseguia sentir seus corações. Dedicava-se a isso algumas horas de seu dia, que terminava sempre depois das 2h da manhã. Um aluno contou que desabafou por meia hora, falando de seus problemas – Rav Mordechai ficou quieto todo tempo, concentrado no que ouvia; ao final, estava com lágrimas nos olhos.

Rav Mordechai ZT”L e Rav Amiel Shelita

BONDADE

Certa vez, alunos lhe perguntaram quem foi a personalidade que mais o influenciou. Imaginavam que ele mencionaria algum Rabino, mas surpreendentemente respondeu: Shlomi.

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Shlomi ZT”L era seu primogênito, que nasceu com várias deficiências. Rav Mordechai cuidava dele com uma entrega infinita – era com certeza o melhor amigo do filho. Um dos moradores do bairro de Kiryat Moshe, onde Rav Mordechai morou, conta: “Faz parte da minha infância a imagem do Rav Moti andando na rua com uma mão dada a Shlomi, a outra com uma Gmará aberta – e com tudo isso ele era a primeira pessoa na rua a me sorrir e falar bom dia….”

O Rav participou da abertura de uma associação de ajuda a crianças com deficiências e era parte da direção do local. Todos os domingos costumava visitar seu filho, que se encontrava nessa associação, e aproveitava para contar histórias a todas as crianças lá presentes. Quando seu filho se mudou para outra instituição e o pai parou de frequentar a primeira, ligaram para Rav Mordechai dizendo que as crianças estavam perguntando onde estava o senhor que contava histórias. Isso fez com que, durante um bom tempo, o Rav voltasse a contar histórias para as crianças todos os domingos, apesar de ser uma pessoa extremamente atarefada.

Um aluno lembra: “Certa vez, um aluno com deficiência começou a estudar na Yeshivá, mas suas necessidades e seu comportamento atípico fizeram com que a situação não se sustentasse. A difícil missão de explicar para o aluno que não poderia continuar no local foi dada ao Rav Mordechai, pois poderia falar com a maior delicadeza possível. O jovem não gostou e saiu da Yeshivá bravo e reclamando. Porém, para minha surpresa, após alguns meses o vi em um casamento se abraçando ao Rav Moti. Quando perguntei sobre a mudança de comportamento, o aluno explicou que, desde que havia saído da Yeshivá e se transferido para uma instituição para deficientes, o Rabino o visitava toda sexta-feira e passava uma hora conversando e estudando com ele. Tamanho era o sentimento de responsabilidade por cada aluno”.

“Certa vez perguntaram qual personalidade mais o influenciara. Achavam que citaria algum Rabino, mas respondeu: Shlomi, seu primogênito, que nasceu com várias deficiências.”

Nos últimos anos da vida, ele enfrentou um câncer. Apesar de ter ficado muito fraco e doente, não se deixou abater. Continuou ministrando o máximo de aulas possível. Ao ser perguntado como se sentia, dizia que o corpo não estava bem, mas, graças a D’us, a cabeça sim – e por isso deveria continuar a dar aulas.

Continuou a visitar diariamente Shlomi, que na mesma época também enfrentava dificuldades de saúde e estava no hospital (viria a falecer alguns meses após o pai).

Quando seus familiares sugeriram que fizessem um rodízio para ficar ao lado de Shlomi, o pai recusava-se: dava todas as forças restantes para estar do lado do filho.

Na noite de 7 de Kislev, em uma quarta-feira e menos de uma semana antes de seu falecimento, Rav Mordechai ministrou em sua casa sua última aula, com esforço extremo – precisou de um balão de oxigênio. O Rabino recorria a suas últimas forças, mas os ouvintes afirmaram que o Shiur era intenso e afiado como nos velhos tempos. Na manhã seguinte, seus pulmões se renderam, e o Rabino foi internado no hospital Shaarei Tzedek. Em 12 de Kislev, quando os médicos disseram que ele estava em seus últimos minutos, os familiares se reuniram à sua volta e, durante longos minutos, rezaram e cantaram. Da família faltava apenas um: seu irmão gêmeo, Rav Amiel. No exato momento em que este entrou no quarto, Rav Mordechai devolveu sua alma ao Criador. Antes de subir aos Céus, ele esperou a pessoa que o acompanhou a vida inteira.

Dezenas de milhares de alunos compareceram ao funeral, despedindo-se de alguém que, embora faça muita falta, influenciará nosso povo para sempre por meio de seus alunos e ensinamentos.

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