Torá e Ciência

### Page 1 ###

Questões sobre a
Carne Cultivada

Torá e Ciência

Ela é kasher? É considerada bassari? Pode ser ingerida
com leite? Descubra as respostas…

MEIR KUPERMAN
MEIR ZAGURY
2º ano e 3º ano do Ensino Médio

Utilizando técnicas avançadas de reprodução celular, cientistas consegui-
ram, recentemente, produzir carne cultivada em laboratório, marcando um passo
importante para a inovação alimentar.

O processo de fabricação dessa carne consiste em recolher células-tronco de
um animal vivo, misturar com gorduras e outras substâncias químicas, e, após cer-
to tempo, ela se transforma em um pedaço de carne com exatamente os mesmos
sabor e consistência de uma carne normal. Carnes cultivadas dessa maneira vêm
sendo cada vez mais comuns ao redor do mundo, pelo fato de respeitar os animais
e não prejudicar o meio ambiente.

A carne cultivada em laboratório chegou a Israel oficialmente em 17 de janeiro
de 2024, quando o governo concedeu sua primeira aprovação regulatória para co-
mercialização no país.

Consequentemente, como toda novidade, os rabinos precisam decidir a hala-
chá em relação a esse assunto, comparando-o a outros, cuja lei é conhecida. No
caso da carne cultivada, é necessário discutir se o fato de conter uma célula de um
animal vivo, que não passou pelo processo de shechitá (abate segundo os critérios
da halachá), torna a carne proibida ou não. Se for permitida, devemos decidir se ela
é bassari ou parve.

Hoje em dia, já existe tecnologia para fabricar também a partir de uma célula
tronco de um animal já morto (no qual foi feita shechitá), o que dispensaria nossa
primeira dúvida.

Fonte: Shiur
do R’ Yitzchak
Shammah’

69 | Or Yossef Yeshivá College

### Page 2 ###

A primeira consideração é a de “בטול” (anulação). Por exemplo, no caso de uma gota de leite cair
em uma panela de carne com quantidade 60 vezes maior, essa mistura é permitida, pois o gosto do
leite foi anulado. A partir disso, dá para afirmar que a carne cultivada seria kasher, pois a textura dela
surge também de algo permitido em quantidade maior (algas e gorduras), e o gosto proibido (da cé-
lula-tronco) foi anulado.

Entretanto, segundo R’ Yaakov Ariel shelita (ex-rabino-chefe da cidade de Ramat Gan; atualmente
presidente da Yeshivá de Ramat Gan), esse argumento tem um grande erro: as gorduras e algas não
anulam a célula, mas simplesmente possibilitam que ela cresça e se torne um pedaço de carne. Em
outras palavras, a carne formada é uma criação direta da célula e, portanto, esta não foi anulada, mas
sim, cresceu e foi desenvolvida! Assim sendo, ela continua ali!

A segunda consideração é a de “דָּבָר שֶׁאֵין בּוֹ מַמָּשׁ” (insignificância). Criaturas microscópicas são
permitidas pela Torá, pois a Torá não foi dada para os anjos, e nós, seres humanos, não temos como
evitar ingerir micro-organismos que se encontram no ar e não são visíveis sem um microscópio. Isso
pode ser uma prova de que células-tronco são permitidas.

Entretanto, R’ Shlomo Zalman Auerbach zt’l (Israel, 1910-1995) escreve que a lei da insignificância
só se aplica quando a partícula proibida não é importante para a pessoa, porém, num caso em que a
existência dela seja valorizada, a regra não se aplica, apesar de se tratar de algo invisível a olho nu.
Isso também pode ser dito em relação às células-tronco, que, apesar de serem microscópicas, não
poderão ser anuladas por cumprirem, nesse caso, um papel imprescindível – fato que as torna im-
portantes e significantes.

A terceira consideração é “גְדוּלִים שֶׁזְרְעֶן כָּלָה” (plantas cuja semente se extingue). A maioria das plantas
Or Yossef Yeshivá College | 70

### Page 3 ###

nasce da semente, e essa é extinta quando elas crescem. Contudo, há algumas que
mantêm sua semente inteira, como é o caso da cebola e do alho. No tipo de vegetal
cuja semente desaparece, mesmo que esta seja proibida por alguma restrição da
Torá, o broto será permitido, já que é algo ‘novo’ (enquanto no caso da semente que
não desaparece, como a cebola, a semente original continua dando força à planta).
Teoricamente, poderíamos aprender daqui que a célula-tronco que “desaparece”
quando vira carne seria, portanto, permitida, e por isso muitos judeus comem car-
ne cultivada de Israel, onde as gorduras e substâncias químicas acrescentadas à
célula são kasher. Mas R’ Yaakov Ariel não aceita esse argumento, pois, no caso da
semente que se extinguiu, a força do crescimento da planta vem da terra, e não
dela, enquanto, no caso da célula-tronco, o crescimento da carne vem da própria
célula, apesar de ela, aparentemente, ‘desaparecer’. É mais correto dizer que ela se
desenvolveu, e não que desapareceu. Em resumo, é mais garantido escolher carne
cultivada que foi desenvolvida de um animal que passou pelo processo de shechitá
(abate ritual).

Leite com carne cultivada em laboratório

Mesmo de acordo com as opiniões de que a carne é kasher, ou no caso em que
71 | Or Yossef Yeshivá College

### Page 4 ###

a carne foi desenvolvida a partir de célula-tronco de um animal no qual foi feito shechitá, resta
decidir se ela é parve, e pode ser ingerida junto com leite, ou é bassari?

Está escrito no Chumash:

“וַיִּקָּח חֶמְאָה וְחָלָב וּבֶן-הַבָּקָר אֲשֶׁר עָשָׂה וַיִּתֵּן לִפְנֵיהֶם”

“Avraham pegou manteiga, leite e o bezerro que preparou e deu a eles”.

Sobre isso, o Malbim pergunta como Avraham pôde oferecer aos anjos carne com leite, e
responde que a carne não era de um animal normal, mas sim de um que foi criado pela força
da Cabalá (como um golem), e ela segue os dinim de um alimento parve. Baseado no Malbim e
em outras Guemarot, há quem alegue que uma carne que não veio de um animal ‘normal’ não é
considerada carne, em relação à proibição da Torá de misturá-la com leite. Mas muitos anali-
sam que não é possível comparar esses casos com o nosso, pois a carne cultivada sai da célula
animal, e não se trata de algo totalmente novo para ser parve; portanto, é bassari.

Em resumo, várias opiniões classificam a carne cultivada da célula-tronco como bassari,
para todos os efeitos! Sendo assim, não será possível comer um X-búrguer de carne cultivada!

Or Yossef Yeshivá College | 72

### Page 5 ###

Atualidades
O desafio da Kashrut
nos tempos atuais

No mundo de hoje, a certificação kosher tem se tornado cada vez mais
necessária para aqueles que desejam ter a certeza de que o que consomem
está de acordo com a Halachá
73 | Or Yossef Yeshiva College

### Page 6 ###

R. EZRA DAYAN

Antigamente, as pessoas compravam os
ingredientes naturais e produziam o alimento em
casa
ou até mesmo cultivavam os ingredientes
no quintal, seja plantando sua horta, criando suas
vacas e galinhas.

Hoje, raros são os que continuam vivendo
dessa maneira – nas cidades grandes, então, nem
se fala!

As pessoas têm cada vez menos tempo para
preparar seus alimentos. Por isso acabam com-
prando ingredientes já industrializados
ou,
muitas vezes, a comida pronta. Basta colocar
tudo no micro-ondas e… abracadabra! Uma re-
feição completa é feita em poucos minutos.

Elas até tentam ler os rótulos, na expectativa
de entender aquele monte de números e letri-
nhas, para saber o que é. Hoje, provavelmente,
já devem estar consultando o ChatGPT e outros
mecanismos de inteligência artificial para deci-
frar tudo isso. Mesmo assim, dificilmente terão
toda a informação e conhecimento para se certi-
ficar de que o ingrediente é kosher.

Mesmo tendo uma noção da origem de cada
item, ainda teremos incertezas, pois a indústria
de alimentos desenvolveu muitos métodos tec-
nológicos de como obtê-los, ou de como melho-
rá-los, e até mesmo de como barateá-los.

Isso em relação apenas aos ingredientes em
si. Mas se observarmos o produto, a questão fica
ainda maior. Há muita competitividade no mer-
cado, seja por resultado, sabor e, principalmente,
preço.

A seguir, alguns exemplos de como os ingre-
dientes podem ser iguais, mas de diferentes fon-
tes, e de como parecem uma coisa, mas são outra.
Parece, mas não é…

Meu objetivo aqui não é entrar nas questões
haláchicas dessas curiosidades, nem definir se é
permitido ou não, mas mostrar que as coisas nem
sempre são o que parecem. Aliás, cada vez mais,
não são…

Vejamos um simples suco de frutas. Além da
questão dos equipamentos nos quais ele é feito,
que podem processar derivados de leite, uva e
qualquer outra coisa, temos o próprio suco. Se
examinarmos uma caixa dele, veremos que nem
tudo é suco. Há refresco e néctar de sabor tal,
suco reconstituído, integral etc.

Cada uma dessas terminologias tem uma ra-
zão de existir. A legislação exige que, para cha-
mar de certa maneira, tenha uma quantidade
mínima de frutas. Agora, imagine se estiver to-
mando um suco que contenha apenas 2,5% de
sumo da fruta, e pareça suco… Deve haver muita
coisa lá dentro, não? Açúcar ou adoçantes, es-
pessantes, corantes, aromatizantes e muito mais
são adicionados ali. E cada um desses elementos
pode ser composto de outros ingredientes, como
é o caso do aromatizante, que pode conter deze-
as de substâncias.

Além disso, mesmo o suco puro, se for clari-
ficado, esse processo pode ser feito de diversas
formas (por exemplo, com gelatina animal ou por
processo enzimático, o qual demanda também
uma verificação para sabermos como produzi-
ram essas enzimas e de onde foram extraídas).

Há uma grande falta de cacau no mundo. Está
muito difícil comprar derivados de cacau para
fazer chocolates. Por outro lado, há uma legis-
lação sobre o que pode ser chamado de choco-
late. Cada indústria resolve isso à sua maneira.
Umas mantêm a qualidade do produto original
Or Yossef Yeshivá College | 74

### Page 7 ###

Atualidades

e aumentam o preço, ou ganham menos. Outras
reduzem a porcentagem de derivados de cacau
ao mínimo exigido pela legislação. Em contra
partida, adicionam várias substâncias, para ten-
tar manter o sabor e a textura. Outros já alteram
mais ainda, e passam a chamar o produto de co-
bertura sabor chocolate e outros nomes que po-
dem ser utilizados pela legislação. Tudo parece
ser a mesma coisa, mas não é.

Quando o produto principal não é o choco-
late, sendo ele utilizado apenas para cobrir ou
rechear, por exemplo, é mais comum isso acon-
tecer.

Até mesmo uma pizza de queijo não é como
tal. Nos congeladores dos supermercados, há
pizzas com cobertura sabor queijo. O que eles
utilizam é um queijo “análogo”. Uma mistura de
ingredientes que tenta chegar a uma composi-
ção similar à do queijo, e que pareça assim quan-
do está sobre uma pizza. Mas não é queijo, e não
pode ser chamado de queijo. Não dá para ima-
ginar a quantidade de ingredientes e fornece-do-
res que precisam ser avaliados para aprovar um
queijo desses.

Adoçantes podem ser de origem vegetal,
como a estévia, mas também sintetizados em la-
boratórios e produzidos via fermentação. Até o
princípio ativo da estévia pode ser feito via fer-
mentação assim não precisamos plantar, regar,
colher etc.

Não se pode imaginar o número de ingredien-
tes que, atualmente, são produzidos por meio de
fermentação. Deixamos os microrganismos tra-
balharem para nós: sabendo escolher o micror-
ganismo correto, realizar eventuais mutações
genéticas e definir o alimento apropriado para
eles, é possível produzir inúmeras substâncias
utilizadas como ingredientes na indústria ali-
mentícia, de suplementos (como aminoácidos) e
na indústria farmacêutica.

As próprias enzimas constituem um univer-
so à parte, podendo ser extraídas dos mais di-
versos tipos de origem. O tema das enzimas já
aparece na Halachá ao tratarmos do queijo, cuja
coagulação é enzimática e, originalmente, feita a
partir do estômago do animal. Esse método ainda
existe, embora atualmente seja mais raro. Assim
como ocorre com a enzima utilizada na produ-
ção de queijo, há outras de origem animal, inclu-
sive provenientes de suínos. No entanto, também
existem muitas enzimas de origem kosher.

Por exemplo, as simples cervejas passam por
processos enzimáticos e têm adição de conser-
vantes. A mudança do tipo de grão para produ-
zir a cerveja demandou processos tecnológicos
para se obter resultados similares. Se, em vez de
malte, utilizarmos milho ou arroz, temos de fa-
zer algo para que fique parecida com a cerveja
original.

Já os pães, para que cresçam mais, fiquem
macios e durem dias na prateleira, contêm todo
tipo de enzimas, emulsificantes e conservantes.
São apenas alguns exemplos, mas podemos
escrever páginas e páginas sobre esse assunto.

O caro que sai barato

Creio que o ponto aqui é compreender que
a maioria dos alimentos industrializados não é
exatamente o que parece. O exemplo que sem-
pre gostei de trazer é que o temido salgadinho
sabor presunto era kosher, enquanto o de sabor
queijo, que parecia mais ingênuo, não. No mun-
do de hoje, o kosher não funciona mais como no
passado recente, olhando apenas os ingredien-
tes, e imaginando qual soa “agradável” aos nossos
ouvidos. Tem de haver alguém que se aprofunde
em cada substância e nas novas tecnologias apli-
cadas em sua obtenção, para se ter certeza do
que realmente é.

Essa lição é válida não apenas em relação aos
princípios religiosos da Kashrut. Ela deve ser
considerada também quando pensamos em nos-
sa saúde, para levarmos em conta o que está en-
trando em nosso corpo. Assim, quando compa-
rarmos os preços dos alimentos, conseguiremos
entender que, muitas vezes, o que é mais caro, na
verdade, é mais barato.
75 | Or Yossef Yeshivá College

### Page 8 ###

af Yeshiva Co
Or Yossef Yeshiva College | 76