Encarte de Tefilá
Rezar em hebraico,
mesmo sem entender?
O cotidiano de um judeu é baseado nas orações, que fortalecem sua ligação com o Criador e dão sentido ao seu dia a dia. Mas por que devemos fazer as tefilot em ivrit?
EZRA MOAS
EIBY MAGID
9º ano do Ensino Fundamental
Se o Criador entende todos os idiomas, por que a tradição insiste tanto na importância de se rezar em hebraico? Para responder a essa pergunta, é necessário traçar um paralelo com o corpo humano. Possuímos centenas de ossos, milhões de veias e artérias, e, apesar disso, cada um deles é individualmente fundamental para o bom funcionamento de nosso corpo.
Similarmente, dizemos todos os dias, na bênção de “Asher Yiatsar”: שֶׁאִם יִסָּתֵם אֶחָד מֵהֶם, אוֹ אִם יִפָּתֵחַ אֶחָד Mֵהֶם, אִי אֶפְשָׁר לְהִתְקַיֵּם אֲפִלּוּ שָׁעָה אֶחָת [“..mesmo que um deles se abra ou se feche (indevidamente), já se tornaria impossível sobreviver até mesmo por uma hora mais”], ou seja, apesar de não compreendermos exatamente a função de cada veia, órgão ou célula, reconhecemos que cada um deles é vital, e que um pequeno bloqueio ou desequilíbrio pode comprometer o funcionamento ideal do corpo humano.
Da mesma forma, podemos entender o sentido de a reza ser em hebraico. Devemos saber que embora, possivelmente, não compreendamos o significado exato de cada palavra, ainda assim, cada sílaba tem sua função espiritual única, fundamental para a formação da oração ideal. Em hebraico, cada letra tem uma força espiritual, e mesmo as conexões entre letras e palavras, assim como seu valor numérico, atuam na composição da tefilá que sobe aos Céus. Em nosso entendimento, pode parecer pequeno e insignificante, mas, no Shamáyim, cada detalhe importa. A pronúncia em hebraico faz, sim, a diferença, mesmo que não entendamos.
A lição de Toscanini
Para ilustrar ainda melhor tal conceito, há uma história marcante sobre Arturo Toscanini, um dos maiores maestros do mundo, conhecido justamente por perceber cada detalhe de uma sinfonia.
57 | Or Yossef Yeshivá College
Certa vez, em 1950, um jovem jornalista resolveu escrever a biografia de um dos músicos mais renomados do século. Após muita insistência, o maestro italiano aceitou o convite e, assim, os dois combinaram de se encontrar diariamente às 17h, a fim de coletar material para a concepção da obra. Durante dois meses, o encontro foi honrado diariamente. Até que, certo dia, ao chegar à casa de Toscanini, o jornalista foi informado de que o encontro teria de, excepcionalmente, ser cancelado naquela tarde. Curioso para saber o porquê, o jornalista ignorou o aviso, e seguiu à procura do músico para lhe perguntar, pessoalmente, o motivo do cancelamento. O maestro inicialmente não queria lhe revelar a razão, porém, após a insistência do jornalista, concordou em lhe explicar:
“Hoje, exatamente às 17h, a Filarmônica de Chicago vai tocar uma das minhas composições. Como não posso estar lá para supervisionar de perto, vou ouvir pelo rádio, e não poderei ser interrompido”.
O maestro deu permissão para que o jornalista o acompanhasse na audição, contanto que não o interrompesse. E assim, por duas horas, os dois ficaram ouvindo a transmissão. No fim do concerto, o jornalista, que já não se aguentava mais, perguntou:
“O que o senhor achou?”.
Arturo Toscanini, demonstrando certa insatisfação, disse:
“Na minha composição eram 14 violinos. Não entendi por que só havia 13!”.
O jornalista não podia acreditar. Como ele conseguiu contar quantos violinos havia na orquestra sem estar lá? Só podia estar mentindo! No entanto, ao telefonar para Chicago, o organizador do evento confirmou ao escritor: um dos violinistas não pôde comparecer. De fato, só havia 13 violinos. Surpreendentemente, o maestro estava certo.
Para um especialista, cada detalhe faz a diferença, e rezar em hebraico, com certeza, colabora para que nossas preces tenham uma elevação especial.
Adaptado do livro “Falando com Hashem”, do R. Chaim Vital Passy (Ed. do Autor)
Encarte de Tefilá
O que a reza muda?
MEIR KUPERMAN
2º ano do Ensino Médio
Os Rishonim questionaram sobre o efeito da tefilá (reza), em como é possível que ela consiga mudar a “vontade” do Criador.
Se uma doença foi decretada sobre alguém, D’us nos livre, como a tefilá transforma a vontade de Hashem, para que Ele lhe determine um destino melhor?
Rav Yossef Albo (Sêfer HaYikarim, 4º Maamar, Cap. 18) responde que a tefilá não vem para mudar o Criador, mas a oração pode transformar aquele que está rezando.
Uma tefilá com concentração provoca uma alteração na própria pessoa, purificando seu coração, mudando seu comportamento, o que resulta no fato de ela deixar o degrau em que se encontrava para atingir um mais elevado.
Sendo assim, quem reza se transforma em outra pessoa, não é mais aquela sobre quem foi decretada a doença. É como se a ordem fosse fixada sobre o indivíduo anterior, não naquele que, por meio da tefilá, se transformou. Em outras palavras, não é o decreto de D’us que muda, mas o homem que se tornou outra pessoa, e, com isso, se livra daquele desígnio.
Por isso, em hebraico, “eu rezo” é מִתְפַּלֵּל (mitpalel), um verbo na forma reflexiva, o que indica uma ação voltada para si mesmo, ou seja, “rezar-se”, “orar para si”. Isso significa que, diferentemente do português ou do inglês, o hebraico vê o ato de rezar como um movimento interior – não apenas pedir algo para Hashem, mas também um processo de transformação ou julgamento pessoal, introspecção, autotransformação.
Como a reza sobre o outro funciona?
Rav Yitschak ben Haviv questionou sobre a explicação do Sefer HaYikarim. Seu princípio pode esclarecer como a reza adianta para a própria pessoa que a faz, mas como entender o que ocorre quando alguém reza para outro? Afinal, o semelhante não mudará pela tefilá (ao contrário daquele que reza), então, como é possível que a reza tenha efeito nele?
A resposta pode ser encontrada no livro Hameir Laolam (R. Michal Rabinovitz, pág. 48). Ele explica que quando D’us fixa uma punição sobre alguém, calcula todos os efeitos sobre os familiares e todos os que, de alguma forma, sentirão pelo sofrimento daquela pessoa. De certa maneira, todos os seus conhecidos também devem merecer algum castigo.
Essa é a explicação do passuk (Tehilim 19:10): “..os julgamentos de Hashem são verdadeiros, justos são todos eles”. Ou seja, se seus familiares não merecessem essa preocupação também, a pessoa não seria castigada dessa forma.
Sendo assim, quando alguém reza pelo outro, mostra que está sofrendo também pela dor e pela falta do próximo. E quando D’us vê a mudança e a elevação naquele que está rezando, tem piedade sobre este e anula o decreto de seu semelhante, pelo mérito daquele que fez tefilá, a fim de que a dor do outro não o afete.
Portanto, rezar exige sentimento, concentração e dedicação, pois o efeito da oração é relativo à mudança que ela traz ao coração da pessoa.
Como escreve o Shelá HaKadosh: “Uma reza sem concentração é como um corpo sem alma” (Assuntos de Reza, 623, 79).
59 | Or Yossef Yeshivá College
| A reza do Tsadik – Uma história de autossacrifício A devoção de um tsadik a seus discípulos é tão grande, que o bem-estar desses últimos torna-se sua maior prioridade. Certa vez, um adepto do Rebe de Cherkassy foi implorar a este que rezasse pela sua salvação, pois assim ele costumava fazer quando se encontrava em apuros e, afinal, a Berachá do tsadik sempre o salvava. Daquela vez, ele não havia recebido o suficiente para saldar suas dívidas com o porits (“senhor feudal”), e este ameaçou prendê-lo, bem como sua família, se seus débitos não fossem quitados imediatamente. Horrorizado, o chassid descobriu que o rebe não se encontrava na cidade. Diante da insistência desesperada daquele homem, que explicou repetidamente sua situação delicada, a rebetsin sugeriu: “Vá até a casa de estudos e fale com meu neto… Talvez ele possa ajudá-lo”. “Mas seu neto é apenas uma criança de dez anos! Eu preciso do rebe! Nossas vidas estão em perigo!”, disse o outro com a voz desesperada. A rebetsin repetiu: “O rebe não está! Vá falar com meu neto!”. Por fim, o menino ouviu o desabafo daquele Yehudi, e após estar a par dos pormenores da história, suspirou e disse: “Se o rebe estiver aqui, certamente poderia ajudá-lo. Mas não há nada que eu possa fazer por você”, concluiu. Apavorado, o homem gritou: “Ouça: sua avó me encaminhou até você! Se há algo que pode fazer para me ajudar, e está deixando de fazê-lo, nunca o perdoarei – nem neste mundo e nem no Mundo Vindouro, pelo que acontecerá à minha família!”. O garoto ficou abalado, fechou o volume do Talmud e disse: “Bem, vamos primeiro ao micvê (banho ritual)”. Os dois foram ao micvê e o homem ficou aguardando enquanto o menino mergulhava, totalmente coberto pela água. Depois de um tempo, o homem começou a ficar preocupado, pois o menino não saía debaixo da água. À medida que os segundos iam se passando, ele entrava em pânico. Ele se esqueceu de todos os seus problemas, e rezou: “Querido D’us, apenas deixe-me ver essa pequena criança sair viva do micvê”. Depois do que lhe pareceu uma eternidade, o menino emergiu da água. “Vá para casa”, disse o garoto. “Você não tem mais nada com o que se preocupar”, concluiu. Algumas semanas mais tarde, o chassid voltou ao rebe para lhe contar que, ao chegar à sua casa, após o encontro com seu neto, o porits o mandou chamar e se desculpou por ter sido tão severo com ele. O senhor feudal contou que, na noite anterior, teve a sensação de estar se sufocando, sem conseguir respirar. Em pânico, começou a pensar que talvez estivesse sendo punido por D’us, pela forma como tratou o judeu. Então, decidiu que iria mudar seu comportamento. Logo a respiração voltou ao normal… “Não só perdoarei suas dívidas, como também vou estipular condições mais favoráveis para o futuro”, disse o rico gentio. Ao saber do ocorrido, o Rebe de Cherkassy balançou a cabeça, dizendo: “Ele é muito jovem para ter esse comportamento…colocar sua vida em perigo!”. O padrão de Ahavat Yisrael continuou na vida daquele garoto, que se tornou o Rebe de Hornistpol. As carências e necessidades dos outros sempre têm prioridade. Fonte: Livro “De Geração em Geração”, Rav Abraham J. Twerski (Editora Colel Torá Temimá do Brasil, 1992). |
