Encarte de Tefilá

Ensinamento dos Céus para Rabi Shimon bar Yochai

R. RAPHAEL SHAMMAH

O Talmud (Shabat 33b) relata que por causa de uma delação, Rabi Shimon bar Yochai e seu filho Rabi Elazar tiveram de fugir da perseguição romana e se esconder em uma caverna durante doze anos. Eles se alimentavam de uma árvore de alfarroba, que brotou na entrada da caverna, e bebiam de uma fonte que lá jorrava.

Durante esse tempo, aprofundaram-se na Torá e nos seus segredos místicos. Após 12 anos, Eliyáhu Hanaví revelou a eles que o Imperador Romano falecera, os decretos contra os judeus foram anulados e, enfim, eles poderiam sair da caverna.

Choque Cultural

Entretanto, de volta à civilização, tiveram um choque. Encontraram pessoas que aravam e semeavam a terra, e disseram: “Esses deixam a vida eterna (o estudo da Torá), e se ocupam com a vida passageira (arar a terra)!”. Todo lugar para o qual voltavam seu olhar penetrante era logo “consumido pelo fogo”.

Uma Voz Celestial foi então ouvida: “Para destruir Meu mundo é que vocês saíram da caverna? Voltem para lá!”. Imediatamente obedeceram, e ficaram ali por mais doze meses! Ao saírem novamente, ainda assim, a visão crítica de Rabi Elazar continuava queimando o que via como afazeres mundanos, porém, Rabi Shimon observava o que fora queimado e, com seu olhar, o “curava”.

Rabi Elazar, com sua empolgação de jovem, continuava não aceitando o que parecia um mundo desconectado da Torá. Mais ponderado, Rabi Shimon disse ao filho: “Basta ao mundo nós dois”, com a visão e percepção verdadeiras das coisas. “E deixe o universo na sua situação, ligado às coisas mundanas”.

Mensagem dos Céus

Foi então que encontraram um camponês correndo para casa, na véspera do Shabat, com dois galhos de hadassim nas mãos. Rabi Shimon e Rabi Elazar o perseguiram e questionaram por que ele carregava aqueles dois ramos. O homem respondeu com naturalidade: “Para honrar o Shabat: um galho pela ordem de Shamor (guardar o Shabat) e o outro pela ordem de Zachor (lembrar o Shabat)”.

Na verdade, essa segunda visão da realidade foi uma resposta dos Céus ao primeiro episódio. Mesmo aquele primeiro camponês que arava a terra não estava desligado da vida eterna. Por meio da honra ao Shabat, mostrava que o importante na sua vida era estar ligado com Hashem. Ou seja, o Shabat acabava elevando toda a vida de trabalho daquele Yehudi.

Com a dedicação de parte de nosso trabalho para honrar Hashem, seja com os Bicurim (primícias), com o Maasser (dízimo) ou com o Shabat, estamos dando um significado espiritual à nossa vida, elevando-a e mostrando que essa é a meta genuína de nosso dia a dia.

Sobre o que o mundo se sustenta?

O Talmud (Sotá 49a) responde a essa questão, e diz: sobre a reza de Kedushá, recitada no trecho de Uvá Letsion e sobre o Kadish, pronunciado após o estudo de Agadá!

Vamos estudar esse trecho de forma mais profunda e entender o segredo dessas rezas, pelo mérito das quais o mundo se sustenta!

Kedushá (recitada no trecho de Uvá Letsion)

Na reza de Shacharit dizemos três vezes os pessukim da Kedushá (Kadosh, Kadosh, Kadosh…. Baruch Kevod Hashem Mimecomô!).

Kedushá é justamente o trecho no qual as criaturas declaram a santidade do Criador, expressando que Ele está acima de qualquer compreensão humana, acima dos limites de tempo e espaço, apesar de, ao mesmo tempo, Sua honra se revelar na Criação, na natureza e na Sua Providência sobre nossas vidas.

Explicação mais detalhada em Or Yossef Chai (edição nº 34 – pág. 61)

Na primeira vez, na Berachá de Yotser Or, contamos como todos os anjos e as forças celestiais pronunciam a Kedushá, expressando a Santidade do Criador.

Já na segunda vez, na reza de Nakdishach, na repetição da Amidá, Am Yisrael se junta aos anjos e agora, anjos e Yehudim, dizem os versículos da Kedushá:

מַלְאָכִים הֲמוֹנֵי מַעְלָה, עִם עַמָּךְ יִשְׂרָאֵל, קבוּצֵי מַטָה (“Os numerosos anjos de cima com seu Povo Israel, que se reúne aqui embaixo”).

Já a terceira Kedushá é recitada na reza de Uvá Letsion, quando nós próprios entoamos a Kedushá, dessa vez sem a participação dos anjos. Nesse trecho citamos: וְאַתָּה קָדוֹשׁ יוֹשֵׁב תְּהִלּוֹת יִשְׂרָאֵל (“Você é Santo e habita nos louvores entoados pelo Povo de Israel”).

Dessa vez, homens de carne e osso, humanos mortais com vontades físicas e materiais, se unem para expressar a Santidade do Criador, Que Se revela através dos atos de Am Yisrael, o Povo escolhido.

Trecho da reza Quem a diz Como se diz
1ª Kedushá Berachá de Yotser Or Anjos
2ª Kedushá Repetição da Amidá Nós com os anjos
Trecho da reza Quem a diz Como se diz
1ª Kedushá Berachá de Yotser Or Anjos Sentados *
2ª Kedushá Repetição da Amidá Nós com os anjos De pé
3ª Kedushá Uvá Letsion Somente nós Sentados*

*Vale notar que somente quando recitamos a 2ª Kedushá junto com os anjos é que a dizemos de pé, pois na 1ª Kedushá apenas relatamos o que acontece nos mundos superiores. Já em relação à 3º Kedushá, devemos dizê-la sentados, indicando que mesmo quando nos envolvemos nos afazeres do dia a dia mantemos nosso comportamento segundo as instruções da Torá e, assim, revelamos a Santidade do Criador em nossas vidas.

Alicerce

Nesse sentido diz a Guemará (Sotá 49a) “o mundo”, ou seja, não os estudiosos da Torá, pois esses contam com o mérito do estudo para continuar a viver, mas o restante do mundo, do Povo Judeu, qual seu mérito? A resposta é a 3ª Kedushá, dita pelo Povo Judeu, que indica que todo Yehudi revela a presença de Hashem em sua vida e existência e esse é o motivo pelo qual o mundo merece existir.

Kadish de Agadá

O Kadish também é uma prece na qual pedimos para que se faça santificar e enaltecer o Nome do Criador em nossas vidas e de todo Am Yisrael.

Há várias categorias dessa reza especial. Um tipo de Kadish é dito pelos enlutados, outro após a reza da Amidá (Titcabel). Ainda há outro (Al Yisrael), pronunciado após o estudo de Agadá – contos e histórias que trazem, de forma alegórica, ideias profundas da Torá. Por ser um estudo mais leve e menos complexo, a Agadá era estudada pelos trabalhadores, no fim de um dia de labuta, quando estavam cansados e, ainda assim, iam ao Bêt Midrash para ouvir uma aula de Torá.

Nesse Kadish lembramos que não são apenas os Sábios, mas todo o Povo de Israel que estuda a Torá, que santificam a glória de Hashem.

O Talmud (idem) diz que esse Kadish, recitado por pessoas simples, após o estudo que segue um dia cansativo de trabalho árduo, também é um pilar que sustenta o “mundo”. Ele é o mérito que sustenta o mundo, que na maior parte do tempo está ocupado com assuntos materiais.