Pensamento
As guerras
e os judeus
Quase 80 anos depois da Segunda Guerra, os conflitos armados voltam a pairar sobre o mundo. Como judeus, temos de ficar atentos
MENDY GORNSTEIN
2º ano do ensino médio
A humanidade, infelizmente, já se acostumou com guerras ao longo dos séculos. E nós, judeus, sabemos muito bem como elas são cruéis, muitas vezes injustas e dizimadoras – sobretudo a Segunda Guerra Mundial, quando foram violentamente mortos 6 milhões de judeus e cerca de 1 milhão de crianças.
Passados quase 80 anos desse terrível e devastador período, a guerra voltou a pairar sobre a Europa desde que se intensificou a batalha russo-ucraniana, em 24 de fevereiro de 2022. O maior conflito bélico em solo europeu desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Analistas dizem que, dependendo das consequências, esse evento pode desencadear uma Terceira Guerra. Alguns efeitos já se manifestam, como a crescente tensão entre China e Taiwan.
Antes do início dos atuais combates, diversos judeus ucranianos não acreditavam na possível invasão russa, embora a previsão de uma iminente ocupação fosse vista como inevitável por uma série de especialistas. Quando de fato ocorreu, essas pessoas encararam enormes desafios para abandonar o país em meio a fome, frio, bombardeios, fronteiras fechadas e congestionamentos enormes. Imagine o desespero de mães tentando salvar seus filhos pequenos ou de idosos aflitos sem nenhuma ajuda…
O povo judeu é historicamente perseguido. Portanto, momentos de tensão e guerra requerem atenção e cautela. Decisões preventivas tomadas no momento certo são fundamentais.
Albert Einstein, por exemplo, fugiu da Alemanha em 1933, seis anos antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial. O físico alemão teve a sensibilidade de entender que a ascensão de Hitler representava uma ameaça. Mesmo antes, em 1922, dois anos após a fundação do partido nazista, ele escreveu à sua irmã, quando foi estudar fora: “Aqui estão sendo gestados tempos obscuros, econômica e politicamente, por isso estou contente de poder ficar longe de tudo isso durante um semestre”. Os mais atentos já notavam que algo estava muito errado.
E atualmente? Como os conflitos que já ocorrem e os que estão se insinuando afetam os judeus e o judaísmo? Para responder, precisamos voltar no tempo.
Em 1949, foi criada a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), uma aliança dos EUA com países europeus a fim de combater principalmente a expansão da ainda socialista União Soviética. Começou com 11 países-membros; hoje são 30.
De acordo com documentos oficiais, o papel da Otan é garantir a liberdade e a segurança de seus países-membros por meio de ações políticas e militares – ou seja, não se contrapõe apenas à União Soviética, até porque hoje não existe mais o problema do socialismo na Europa.
Com o final da Guerra Fria, em 26 de dezembro de 1991, o mundo teve certa estabilidade, com hegemonia ocidental e valorização de princípios como liberdade, democracia, livre mercado e, claro, capitalismo. Isso durou até 2001, com o atentado às Torres Gêmeas, em Nova York.
Não foi somente um golpe contra os Estados Unidos, mas contra todo o mundo ocidental – foi uma declaração de guerra! Começou então a guerra do Afeganistão, com objetivo de capturar Osama bin Laden e outros líderes da Al-Qaeda (grupo responsável pelos ataques às torres). A operação tinha como foco, também, derrubar o regime Talibã que apoiava Bin Laden e impedir o uso do Afeganistão como base de operações terroristas. Bin Laden foi pego, porém, a guerra continuou até 2021, com a saída das tropas americanas.
Em paralelo, a Rússia vinha se preparando para fazer uma invasão em larga escala na Ucrânia, para evitar que esta aderisse à Otan – já que, se os ucranianos se juntassem à aliança, os EUA poderiam até ter mísseis pertíssimos de Moscou, algo que obviamente não é do interesse russo. Com a saída dos EUA do Afeganistão, a Rússia enxergou uma boa oportunidade (na teoria) de iniciar sua ofensiva, já que aparentemente os Estados Unidos não queriam mais se envolver em conflitos e o povo americano não queria mais bancá-los. Assim teve início a guerra na Ucrânia.
A China é outra nação que também está de olho em um país há muito tempo, neste caso, Taiwan. Os chineses alegam que a ilha lhes pertence, mas sabemos que há outros interesses envolvidos, como o controle da produção de semicondutores, essenciais para a produção de equipamentos como carros, geladeiras, celulares e televisões. Taiwan é um dos maiores produtores desses chips no mundo.
Portanto, a China está de olho nas consequências e sanções ocidentais da invasão russa, para poder se estruturar melhor antes de uma invasão em larga escala. Pode ser uma questão de tempo, mesmo porque a população chinesa vem querendo isso há muito, e o presidente Xi Jinping sabe que, ainda que o sistema político de seu país não seja democrático, o povo chinês consegue, sim, tirar líderes que não o agradem. Uma possível invasão poderia causar uma Terceira Guerra Mundial, até porque os Estados Unidos já deixaram bem claro que, caso a ocupação ocorra, vão entrar militarmente no conflito. Contudo, os chineses são muito calculistas, não querem “partir para cima” sem estarem preparados. Na cultura chinesa, curto prazo é entre cinco e dez anos – ou seja, pode ser que demore, mas provavelmente vai acontecer em algum momento.
Todos esses episódios – os ataques às Torres Gêmeas, a guerra no Afeganistão, a guerra na Ucrânia e a possível invasão chinesa – estão ligados de alguma forma.
Uma eventual consequência de uma Terceira Guerra Mundial poderia ser um mundo bipolar, com duas grandes potências. Seria ruim para Israel: teria de lidar com uma superpotência ainda maior do que é hoje (a China), e aliada a seu maior inimigo atualmente, o Irã, que vem tentando criar armas nucleares.
Outra consequência, especificamente da luta na Ucrânia, é que a Alemanha tem reconstruído seu exército (já que foi proibida de ter forças armadas próprias depois da Segunda Guerra) e conta com o maior orçamento militar desde Hitler. Afinal, a Rússia é uma possível ameaça para toda a Europa. Tal tendência pode não afetar os judeus, mas não podemos desprezar esse fato.
Ressalto que o povo judeu é perseguido até hoje, e precisamos estar atentos a cenários como os que expus acima, mesmo que a princípio não nos afetem diretamente. Não podemos deixar que os que morreram no passado duvidando do perigo de uma invasão não sirvam de lição para nós.
Também não podemos achar que a distância geográfica é um motivo para despreocupação. Mesmo com conflitos ocorrendo em outros continentes, precisamos ficar de olho em nosso país. No Brasil, temos uma radicalização preocupante, em que as palavras “genocídio” e “nazismo” são usadas de forma indiscriminada e incorreta, o que relativiza e diminui o real significado desses termos.
Mas vejamos também o lado positivo. Há inúmeras citações no Tanach sobre situações de conflitos e guerras logo antes da esperada redenção final na era de Mashiach. Quem sabe todas as tensões pelas quais o mundo passa atualmente não sejam o prenúncio de uma nova época de paz e tranquilidade?
Se D’us quiser, com a vinda de Mashiach veremos o mais rápido possível não somente o fim desses conflitos, mas também o fim de todos os problemas que a humanidade enfrenta. Que seja através da paz e da bondade, não de conflitos.
“Quem sabe todas as tensões pelas quais o mundo passa atualmente não sejam um anúncio de uma nova época de paz e tranquilidade chegando?”

