A importância dos Rishonim

História

A importância dos Rishonim

A relevância dos sábios da Torá que atuaram no período posterior aos Gueonim. Trabalho apresentado na Mostra Cultural de 2019

Neste texto vamos conhecer alguns nomes da época dos Rishonim, sábios da Torá no período da história judaica que vai desde o final da época dos Gueonim (século VII a X) até a época dos Poskim-Legisladores (século XVI).

Os Gueonim lideraram o povo judeu principalmente em volta das grandes Yeshivot da Babilônia, no atual Iraque. Com a decadência dos centros políticos da região, a liderança judaica migrou para novos lugares. Antes da influência dos Gueonim desaparecer, a Providência Divina já preparava novos centros e líderes para Am Israel. Os principais centros eram Ashkenaz e Sefarad (outros centros menores, como Provença, Marrocos e a Terra de Israel, também podem ser citados).

RISHONIM ASHKENAZIM

Origem

Os Rishonim Ashkenazim apareceram ao longo das comunidades que ficavam à margem do rio Reno, como Spier, Vorms e Maintz. Após a destruição do Segundo Templo, parte dos judeus foi exilada para Roma, gerando gradualmente a Diáspora Italiana. Com o tempo, comerciantes judeus subiram o rio Reno, instalando-se em pequenos núcleos que depois se tornaram comunidades.

Conhecemos a migração no século IX dos grandes sábios Rav Moshe Hazaken e seu filho Kalonymous, provenientes da cidade de Luca, na Lombardia. A família Kalonymous instalou um centro de estudos (Yeshivá) em Maintz que proveu sábios e liderança para os séculos seguintes.

Chassidei Ashkenaz

Moldada pelos percalços da história, essa região desenvolveu não somente uma escola específica de estudo do Talmud, mas também uma linha filosófica que se isolava das influências externas e uma devoção extrema, com tendência ao ascetismo, criando o movimento dos Pietistas (Chassidei) de Ashkenaz.

A região era dominada pela influência da Igreja e pelos mosteiros que pregavam a humilhação dos judeus, reduzindo o contato cultural entre estes e a população. Os judeus viviam confinados em sua tradição, desvinculados da sociedade. Ademais, os aldeões eram analfabetos – somente padres e monges sabiam ler e escrever.

As Cruzadas e os frequentes decretos sobre a população judaica levaram muitos a dar a vida por Kidush Hashem e desenvolveram um fervor religioso que é evidente nos livros de seus líderes.

Grandes nomes

Entre os grandes nomes devemos citar Rabeinu Guershon (960-1040), original de Metz, mas que se juntou à Yeshivá de Mainz e foi o mestre dos professores de Rashi. Há uma tradição que diz que Rabeinu Hai Gaon, o último dos Gueonim, visitou a Yeshivá de Mainz, simbolizando a passagem do bastão da liderança.

Mas foi Rashi o grande líder que difundiu e aumentou muito o estudo da Torá em Ashkenaz. Além de ser o grande comentarista do Talmud, em torno de seus descendentes se formou a escola do Baalei Hatossafot, que desenvolveu o pensamento comparativo/analítico entre as diversas partes do Talmud. Rashbam, neto de Rashi, completou seu trabalho de explanação do Talmud, enquanto Rabeinu Tam, também neto de Rashi, e R’Itzhak Hazaken se destacaram entre os principais sábios da época dos Tossafot.

A partir de Rav Meir de Rutemberg e seus alunos, desenvolveram-se os primeiros legisladores que escreveram obras deduzindo conclusões práticas a partir do Talmud. Essa tendência se evidencia ainda mais na grande obra do Rosh, que faz um amálgama entre os textos do Rif (Marrocos) e a escola dos Baalei Hatossafot (Alemanha e França) nas suas conclusões Haláchicas. O próprio Rosh (Rabeinu Asher) migrou da Alemanha para a Catalunha, sendo recebido com grande honra pelo Rashba, rabino de Barcelona, depois se instalando na cidade de Toledo.

RISHONIM SEFARADIM

Paralelamente a este movimento em Ashkenaz, com a expansão do Islã pelo norte da África até o sul da Espanha chegaram também os comerciantes judeus, formando comunidades no Marrocos e na Espanha islâmica.

Conhecemos a história dos quatro sábios sequestrados de um navio proveniente de Bari (Itália) e resgatados pelas comunidades do oeste do Mediterrâneo. Eles ajudaram a formar centros de Torá nesses novos locais.

Principais nomes

Rav Itzchak Alfassi, conhecido como Rif, grande Rosh Yeshivá da cidade de Fez, copiou as partes práticas do Talmud e trouxe as principais conclusões das análises da Guemará.

Seu herdeiro como Rosh Yeshivá, Rav Yossef Migash, foi mestre do pai do Rambam (Rav Moshe ben Maimon). Maimônides foi um gigante legislador, que uniu os ensinamentos do Rif com os estudos do Talmud de Jerusalém e escreveu sua obra magnifica “Mishne Torá”, na qual legislou sobre todos os assuntos da Torá, muitos dos quais só serão novamente atuais com a vinda de Mashiach e a reconstrução do Beit Hamikdash.

Nachmânides, conhecido como Ramban, de origem Ashkenazita, viveu na Catalunha, assim como seu consogro Rabeinu Yona de Girona, que levou à Espanha a influência dos sábios judeus da Provença.

Aluno desses sábios, destaca-se o Rashba (Rav Shlomo ben Aderet), rabino de Barcelona conhecido por sua grande coleção de responsas.

Rav Yomtov, o Ritva, aluno do Rashba, herdou seu lugar como líder da Catalunha, seguido por Rabeinu Nissim. Este, rabino em Barcelona e depois em Zaragoza, escreveu um vasto Pirush sobre o Rif, além de explicações sobre o Talmud e uma compilação de seus cursos filosóficos “Drashot HaRan”.

Obras filosóficas e cientistas judeus

A relativa tolerância da civilização islâmica na Espanha em certas épocas deu espaço a uma frutífera eloquência das ciências e da filosofia aristotélica com os pensadores judeus, criando várias obras-primas de filosofia judaica, como “Guia dos perplexos”, do Rambam. O “Cuzari” de Rabi Yehuda HaLevi, “Os deveres de coração” de Ibn Pakuda, e muitos outros que se desenvolveram nessa época, chamada de Época de Ouro.

Legisladores – Shulchan Aruch

Todo esse material, da veia alemã/francesa, da veia espanhola/catalã e do norte da África, contribuiu para as obras legisladoras de Am Israel. Os últimos Rishonim já inseriram em suas obras insights práticos provenientes das análises do Talmud, mas havia necessidade de obras que reunissem todas as ideias e organizassem o vasto material.

O próprio Rambam fez um trabalho nessa direção dois séculos antes, mas sua obra não foi aceita como conclusão, somente como uma das ideias no mosaico da lei judaica.

Essa tendência teve início no livro “Arba’ah Turim”, obra de Rav Yaacov filho do Rosh, que reuniu as ideias dos Rishonim, codificou e dividiu os assuntos legais atuais em quatro partes, com capítulos e subcapítulos. Essa divisão foi usada por Rav Yossef Caro, editor do Shulchan Aruch, livro básico da lei judaica aceito por Am Israel.

Rav Yossef Caro, expulso da Espanha católica, migrou para Tzfat na Terra de Israel, e lá compôs um extenso comentário sobre o “Tur” chamado Beit Yossef, e concluiu este trabalho com a legislação final na sua obra, o Shulchan Aruch.

Por último, devemos lembrar o Rema, Rav Moshe Isserlich, Rabino em Cracóvia, que através de suas observações sobre o texto do Shulchan Aruch trouxe as leis praticadas entre os Ashkenazim com as tradições dos Rishonim da Alemanha, completando assim a primeira etapa de codificação da legislação judaica.

BIOGRAFIAS E DESTAQUES (RISHONIM)

• Rabenu Gershom – Meor Hagola (960-1040): Foi um dos grandes rabinos de Ashkenaz. Seu apelido, “Luz da Diáspora”, demonstra a grande admiração que sua geração tinha por ele. Instituiu decretos contra a poligamia, divórcio contra a vontade da mulher e outros, dos quais parte é relevante até nossos dias. Escreveu um comentário sobre o Talmud Bavli que serviu de base para o comentário de Rashi.

• Rabi Itzchak Alfassi – Rif (1013-1103): Nascido na Argélia, foi discípulo do Rabi Nissim Gaon e do Rabi Chananel ben Chushiel em Kairouan. Seu sobrenome Alfassi se deu pelo nome da cidade de Fez, no Marrocos. O Rif encerrou a época dos Gueonim e abriu a época dos Rishonim. Sua obra “Hilchot Rav Alfassi” foi um dos três pilares haláchicos sobre os quais Rabi Yossef Caro se apoiou para instituir as Halachot do Shulchan Aruch.

• Rabi Shlomo Itzchak – Rashi (1040-1105): Iluminou o estudo da Torá com seus comentários sobre a Tanach e a Guemará, considerados como base para todo especialista. Sua Yeshivá ficava em Vermiza. O Chida escreveu que Rashi tinha Ruach Hakodesh e que, se não fosse por ele, seria esquecida a Torá de Bnei Israel.

• Rabi Shmuel ben Meir – Rashbam (1085-1174): Nascido na França, neto e aluno de Rashi, irmão de Rabenu Tam e um dos grandes Baalei Hatossafot. Apresentou um comentário próprio sobre a Torá, Neviim e Ketuvim, e completou o comentário de Rashi sobre o Talmud.

• Rabi Yehuda HaLevi – Rihal (1074-1140): Nasceu em Toledo, Espanha. Foi um grande poeta e autor do famoso livro “O Cuzari”, um dos principais livros de filosofia judaica.

• Rabi Yossef ben Meir – R’Y Migash (1077-1141): Nascido na Espanha, estudou com o Rif por 14 anos. O Rif escreveu que nem na época de Moshe Rabenu se encontrava alguém tão sábio e inteligente como ele. Preencheu o lugar do Rif e foi mestre de Rabi Maimon (pai do Rambam).

• Rabi Yaacov ben Meir – Rabenu Tam (1100-1171): Nasceu na França, em Ramerupt. Conhecido por sua mente afiada, foi um dos grandes Baalei Hatossafot e líder de sua geração.

• Rabi Itzchak bar Shmuel – Ri Hazaken (1119-1190): Nascido na França, sobrinho e aluno de Rabenu Tam. Um dos grandes Baalei Hatossafot sobre o Talmud Bavli.

• Rabi Eliezer ben Yoel Halevi – Haravia (1120-1293): Nasceu na Alemanha, neto de Raavan. Escreveu o livro “Avi Haezri”, com leis e comentários sobre o Talmud, e o livro “Aviassaf”.

• Rabi Moshe ben Maimon – Rambam (1138-1204): Nasceu em Córdoba, Espanha. Fugiu para o Marrocos e depois para o Egito, onde se tornou médico particular do sultão Tzalach A-din. Foi um grande comentarista, filósofo e autor da grandiosa obra “Mishne Torá”.

• Rabenu Yona Hachassid Girondi (1200-1263): Nascido em Girona, Espanha. Inicialmente opositor dos livros de Rambam, ao reconhecer seu erro foi desculpar-se no túmulo dele. Entre suas famosas obras estão “Igueret Hatshuva”, comentários sobre a Torá, Mishná e Talmud.

• Rabi Moshe ben Nachman – Nachmânides / Ramban (1194-1270): Nascido em Girona, Espanha. Um dos grandes Posskim, comentaristas e cabalistas. Fez Aliá à Terra de Israel no final de sua vida.

• Rabenu Meir ben Baruch – Maharam de Rotenburg (1220-1293): Nascido em Ashkenaz, autor de vários Tossafot. Faleceu no cativeiro após sete anos sequestrado, oposing-se ao pagamento de seu próprio resgate para evitar que o sequestro de grandes rabinos se tornasse prática.

• Rabenu Asher ben Yechiel – Rosh (1250-1327): Nasceu em Ashkenaz e fugiu para a Espanha em 1303. Tornou-se o Possek da Espanha e um dos pilares haláchicos do Shulchan Aruch.

• Rabi Shlomo ben Aderet – Rashba (1235-1310): Chefe dos sábios da Espanha, aluno de Ramban e Rabeinu Yona. Sua influência é notável na explicação do Talmud e na legislação da Halachá.

• Rabi Yom Tov ben Avraham Alashvili – Haritva (1250-1330): Nascido em Zaragoza, Espanha. Destacou-se pela extrema humildade e pelas obras como “Chidushei HaRitva” e “Sefer Zikaron”.

• Rabi Yaacov ben Asher – Baal Haturim (1269-1343): Terceiro filho e aluno do Rosh. Autor da obra “Arba’ah Turim”, que engloba todas as Halachot e costumes e serviu de base para o Beit Yossef.

• Rabi Nissim ben Reuven – Ran (1320-1380): Nascido na Espanha, médico, Sofer Stam, grande Possek e comentarista do Talmud (notadamente sobre Massechet Nedarim e as Halachot do Rif), além da obra “Drashot HaRan”.

• Rabi Yossef Caro – Maran Beit Yossef (1488-1575): Nascido na Espanha, passou por Portugal e Turquia, fazendo Aliá para Tzfat. Escreveu o “Beit Yossef” e o “Shulchan Aruch”, cujas decisões foram aceitas por todo o povo de Israel.

• Rabi Moshe Isserlich – Rema (1520-1572): Nasceu na Polônia. Escreveu o “Mapa” sobre o Shulchan Aruch, adaptando-o aos costumes e tradições dos Ashkenazitas.

Or Israel College | Páginas 32-39