Movimento do Mussar
Essa tendência do judaísmo nasceu da Lituânia, mas influenciou várias linhas com sua ênfase num entendimento amplo da Torá e em exercícios de aprimoramento moral
R. RAPHAEL SHAMMAH
O movimento do Mussar nasceu para fazer frente ao declínio espiritual das comunidades judaicas da Lituânia, embora a grande maioria da população fosse religiosa e houvesse muitos gigantes da Torá.
Segundo seus líderes, ideias estranhas ao judaísmo, como ganância e luxúria, bateram às portas do povo. Os defeitos de moral e ética se alastraram, e o estudo da Torá virou uma rotina sem alma (R. Yehoshua Heler). Os caminhos do verdadeiro temor a D’us estavam desertos, e os portões do serviço Divino genuíno haviam se fechado (R. Itzchak Blazer).
O Mussar veio iluminar o verdadeiro Avodat Hashem e revolucionar a espiritualidade de Am Israel, trazendo-o de volta à sua herança majestosa.
TRÊS PLANOS: TORÁ, MITZVOT E ADAM COMPLETOS
O movimento se concentrou em três pontos: uma Torá completa, atos perfeitos e a perfeição do homem. A premissa era que se deveria sair do judaísmo limitado para um judaísmo contundente, que englobe toda a vida, num espectro amplo.
Torá Completa: Deve-se cumprir a Torá como um todo, incluindo não só as Mitzvot com o Criador, mas também as Mitzvot com o próximo.
Atos Perfeitos: Cumprir as Mitzvot, mas não de forma automática e rotineira, sem sentimentos e sem uma intenção mais profunda. E cumprir partes das próprias Mitzvot muitas vezes negligenciadas por falta de conhecimento ou de cuidado.
Perfeição do Ser Humano: Esta é a meta da Torá, tornar o homem perfeito em suas ideias, em seu comportamento e em seu caráter.
O Mussar penetra nas entranhas do ser humano e coloca uma lupa em seus defeitos – que existem não só no povo em geral, mas muitas vezes mesmo nos estudantes da Torá. O objetivo é endireitar os instintos ainda selvagens e consertar as tendências negativas do caráter.
Esse trabalho exige um processo contínuo e sistemático de análise e aprofundamento, além de caminhos para assimilar as ideias e colocar os valores na prática. O Mussar compara o homem a um campo que precisa ser completamente arado antes de poder gerar seus frutos de forma ideal.
Foram desenvolvidas maneiras de explicar as virtudes almejadas, além de exercícios emocionais, intelectuais e práticos que educam o Yehudi no seu avanço espiritual.
LIVROS DO MUSSAR
A principal ferramenta dessa batalha educacional do homem contra seus instintos é o estudo dos livros do Mussar, que, além de indicarem os atos corretos, incutem as vontades corretas e enfraquecem os impulsos negativos. Os principais livros adotados pelo movimento foram “Os Deveres do Coração” (Ibn Pakuda), “Shaarei Teshuvá” (R. Yoná de Girona) e “O Caminho dos Justos” (Ramchal).
A arma mais radical, porém, é a repetição de certos trechos, versículos ou frases (como mantras), que tem o poder de despertar e penetrar no íntimo. Esse exercício, quando feito com vontade e empolgação, é capaz de influenciar o subconsciente, transformando o ser humano e revolucionando seu caráter. O movimento fixou a forma, o lugar e o tempo ideal para esse trabalho.
Suas análises se baseiam muitas vezes numa reflexão sobre episódios da própria Torá e do Midrash em seu sentido literal, explicados sob o prisma da psicologia do ser humano.
O Mussar compara o homem a um campo que precisa ser completamente arado antes de poder gerar seus frutos de forma ideal
ILUMINISMO E REFORMA
Os ventos do iluminismo bateram forte nas comunidades da Alemanha, dando início ao Movimento Reformista, que logo se alastrou para os países vizinhos. Mas, enquanto na Polônia e na Ucrânia as comunidades já tinham contato com o Chassidismo, que conseguiu fortalecer as comunidades frente ao novo perigo, na Lituânia, aonde o Chassidismo não chegou, as comunidades estavam desprovidas de armas para se defender.
O Mussar foi então a resposta a essas influências, e através dele um novo ânimo reforçou os grupos da Lituânia.
YESHIVOT
Linhagem Mussar
Diagrama de bolhas com as três gerações da linhagem do movimento Mussar

O fundador
Rav Israel Salanter
R. RAPHAEL SHAMMAH, Rosh Yeshivá
E DAVID KHAFIF, 2º ano do ensino médio
Israel Lipkin, mais conhecido como Rav Israel da cidade de Salant (Lituânia), é o fundador e precursor do Movimento Mussar. Ele era um jovem prodígio, gênio em Torá, mas, além de tudo, um grande revolucionário. Sua retidão, sua coerência e seu caráter refinado influenciavam a todos que o conheciam.
Nascido em 1810, destacando-se desde pequeno por sua genialidade, Israel Lipkin foi encaminhado aos 12 anos ao Rabino da cidade, o Gaon Rav Zvi Broida, que cuidou de perto de seus estudos. Aos 14, enviou uma compilação de suas inovações no Talmud ao grande sábio daquela geração, Rabi Akiva Eiger, que se espantou com sua profundidade.
Ainda jovem, juntou-se a um grupo seleto de grandes estudiosos da Torá, todos com mais idade que ele. Estudou noites e dias, durante 18 anos. Entre esses sábios, chamou sua atenção o comportamento exemplar de Rav Zundel de Salant. Certa vez, quando Rav Israel espiava atrás de Rav Zundel, este exclamou: “Israel, estude Mussar e serás um temente a D’us!” Iniciava-se, então, o Movimento do Mussar.
Naquele instante, Rav Israel recebeu Rav Zundel (que havia estudado na Yeshivá de Valogin com Rav Chaim, aluno do Gaon de Vilna) como seu mestre de Torá. Dedicou-se a entender os caminhos do serviço a Hashem e o refinamento de caráter de seu mentor.
Nesses anos de estudo e aprofundamento, Rav Israel desenvolveu os princípios do movimento, em reação à situação “adormecida” do judaísmo russo e lituano. Ele não era levado pela correnteza, tinha um senso crítico aguçado e uma grande vontade de revigorar as comunidades que o rodeavam.
SUA REVELAÇÃO
No início, Rav Israel se concentrou no aprimoramento e no estudo de cor do Talmud com suas explicações. Mas então concluiu que quem consegue influenciar o público não tem direito de ficar no seu canto: homens grandes de verdade devem se preocupar também com o bem da geração. Concluiu que o caminho do Mussar era o único capaz de elevar a geração e cunhar a face das comunidades, devolvendo-a a seus tempos áureos.
Entendeu também que deveria se tornar uma autoridade conhecida na Torá antes de difundir seu caminho. Para tanto, começou a dar aulas e palestras nas sinagogas da região. Logo se alastrou a notícia de que um novo gênio da Torá aparecia para Am Israel, e todos começaram a louvá-lo. Rav Israel aproveitou a oportunidade para falar também sobre ensinamentos de Mussar e pontos de moral que deveriam ser melhorados.
Vários cargos de Rabinato em cidades importantes lhe foram oferecidos, mas, como princípio, Rav Israel não queria viver às custas da comunidade e tampouco queria se ligar a um local fixo – preferia influenciar mais lugares.
Enquanto procurava seu caminho, propuseram-lhe o cargo de Rabino de uma Yeshivá de Mayle (Vilna), junto com outro Rabino que já lecionava lá. Ele aceitou. Aos poucos, viu que a grande maioria dos alunos escolheu entrar na sua aula, não na do seu colega. Sentiu que este estava um pouco sentido, o que fez com que abandonasse o cargo para não prejudicar seu companheiro.
Já reconhecido como grande sábio da Torá, Rav Israel continuou a dar aulas geniais, discursos e palestras focadas em Mussar nas sinagogas, o que sempre reunia multidões empolgadas. Mas, com o tempo, entendeu que seu método não era propício para as pessoas mais simples, e fundou um local especial para o estudo do Mussar segundo seu método de aprofundamento e repetição. Foi o primeiro “Beit Hamussar”, modelo replicado posteriormente em vários locais. Lá ele dava Sichot muito diferentes dos discursos às multidões, com instruções de autoanálise e autointrospecção. Nessas Sichot, Rav Israel elevava os espíritos e entrava fundo nos corações; esse se tornou o modelo das “Sichot de Mussar” nas Yeshivot.
REAÇÃO
As novidades despertaram reações entre as comunidades muito conservadoras, a ponto de certas pessoas entrarem em suas aulas para questioná-lo e desafiá-lo. Rav Israel aproveitou tais oportunidades para explicar com brilhantismo e convencer o público de seus princípios.
Suas virtudes de caráter e seu comportamento exemplar em todas as situações começavam a ser conhecidos.
Sua grande exposição pública se deu durante uma epidemia de cólera na cidade de Vilna, que fez milhares de vítimas. Geralmente, rabinos não se viam como responsáveis por assuntos de saúde. Não era essa a concepção de Rav Israel, que gravou a responsabilidade mútua sobre todos os judeus como um princípio de seu movimento.
Ele alugou um hospital de 1.500 leitos para ajudar nos cuidados com a comunidade. Como não tinha meios para isso, lançou uma campanha para sustentar seus esforços. Espelhando-se em seu exemplo, os médicos trabalhavam como voluntários, sem cobrar de ninguém. Rav Israel organizou um grupo de 70 jovens voluntários para prestar ajuda a quem necessitasse, em qualquer lugar (a Hatzalah de hoje!). Prometeu aos pais dos jovens que todos voltariam sãos e salvos da epidemia – e assim aconteceu. O próprio Rabino visitava o local, incentivando a todos, para que não desanimassem.
Durante uma epidemia de cólera, alugou um hospital para ajudar a comunidade e instruiu a encurtar rezas e a não jejuar
Instruiu o público a não se enlutar demais, pois a tristeza tende a piorar a situação dos doentes. Contudo, se alguém falecia por falta de esforços, ele se sentia pessoalmente responsável e ficava profundamente chateado.
Rav Israel, que nunca se colocou como Rabino na cidade de grandes mestres (embora muitos sábios o consultassem regularmente), saiu de sua humildade e viu o jejum de Kippur do ano 1848 como grande perigo, por causa da epidemia, e instruiu a todos a encurtar as rezas, sair para respirar ar puro e não jejuar. Com medo de que o público não seguisse suas instruções, ele próprio subiu na Tevah, fez Kidush e comeu na frente de todos. Apesar de alguns o criticarem pela audácia, pois tinha somente 38 anos, ele continuou firme até que todos na sinagoga seguissem um a um o seu exemplo.
Durante toda sua trajetória, Rav Israel foi um líder envolvido nas causas comunitárias, organizando os rabinos da geração para tomarem decisões em prol de seu povo.
EM KOVNA
Por sua oposição a uma escola para formação de rabinos organizada pelo governo russo (que queria nomeá-lo para ser seu diretor), Rav Israel teve que deixar Vilna; instalou-se na cidade de Kovna (no que é hoje a Lituânia).
Lá ele montou um Beit Midrash mais seleto, que tinha como meta criar grandes líderes e mestres da Torá. Dizia que, se conseguisse dentre seus alunos formar dez grandes líderes de Torá e Mussar, criaria uma revolução em Am Israel. E seu sonho se realizou. Dali saíram grandes nomes que difundiram o seu caminho e seu método. Entre eles Rav Eliezer Gordon, fundador da Yeshivá de Telz; Rav Itzchak Blazer, Rabino de Petersburgo; Rav Naftali Amsterdam, Rabino de Elskot; Rav David Grodzinski (pai do grande Rav Chaim Ozer), Rav de Ivia, e Rav Simcha Zissel Ziv, fundador do grande Beit Midrash de Kelem.
Aqui, Rav Israel achou campo fértil para colocar em prática todos os seus ideais, inclusive dando a honra devida e o apoio necessário aos estudantes da Torá. Criou um sistema único para todos os estudantes, sem distinção de nível social. Cuidou dos detalhes técnicos e da aparência dos seus alunos. Sobretudo, instruiu-os no caminho do Mussar e no aprimoramento do caráter.
Ele próprio passava a semana isolado em seu estudo e chamava regularmente um grupo de dez alunos para dividir seus pensamentos, causando nestes grande impacto, até atingirem o êxtase.
De toda a região chegavam alunos a Kovna, para se aprofundarem na Torá e se elevarem nos caminhos do serviço e temor a D’us.
INFLUÊNCIA DIRETA NAS COMUNIDADES
Ao mesmo tempo, Rav Israel continuou a ministrar discursos de Mussar em várias cidades e povoados da região. Em diversas localidades organizou “Beit Hamussar” (local específico para estudar e discutir ideias do Mussar segundo o seu método), difundiu os livros do movimento e criou grupos de estudo, sugerindo aos rabinos uma didática focada nos judeus Baalei Batim (trabalhadores).
Por nove anos Rav Israel morou em Kovna, e lá garantiu a continuidade de seu movimento. Envolveu-se também em causas beneficentes da cidade.
Contam que havia uma casa simples que acolhia os Yehudim pobres, mas ela não vinha sendo bem cuidada – estava tão suja que os pobres sentiam vergonha de estar lá. Os próprios responsáveis pelas finanças e pela gestão da casa não davam a ela muita importância. Quando soube disso, o Rav Israel ficou indignado, foi para lá e dormiu no local. No dia seguinte, ao serem informados da atitude do Rabino, todos se chocaram e, com peso na consciência, voltaram a contribuir com a casa e devolveram a dignidade aos pobres da cidade.
MUDANÇA PARA A ALEMANHA
Rav Israel era incansável em seus esforços para aumentar a Irat Shamaim em Am Israel. Após o sucesso em implantar seus princípios na Lituânia e na Rússia, mudou-se para a Alemanha, a fim de reforçar as comunidades frente ao perigo do iluminismo e do reformismo que estavam dizimando as comunidades ortodoxas. Instalou-se na cidade de Memel, na divisa com a Lituânia. Na região toda também teve grande influência por meio de palestras em diversos centros judaicos, organizou grupos de estudo, empolgou e elevou o nível religioso dos seus ouvintes, reforçou o estudo da Torá e o cumprimento das Mitzvot. Procurou desenvolver um tipo de judeu com cultura geral, mas também com muita Irat Shamaim.
Estudou ele mesmo cultura geral e ciências, para assim estar munido das ferramentas para melhor influenciar seus ouvintes. Publicou uma revista mensal sobre ideias da Torá chamada “Tvuna”, a fim de conseguir melhor alcançar suas metas.
Ao mesmo tempo, continuava em contato próximo com seus alunos na Lituânia e na Rússia, enviando cartas nas quais detalhava seus ensinamentos e os incentivava a continuar o trabalho de propagar o estudo de Mussar. Ele persistiu inovando e organizando, de longe, seu movimento; instituiu em Kovna, e depois em outros centros, um Beit Midrash especial para Avrechim recém-casados, provendo-lhes meios de sustento, para que crescessem em Torá por mais alguns anos até se tornarem mestres da lei judaica, dando início ao Kolel, da forma como hoje conhecemos.
PARIS, O GRANDE DESAFIO
Rav Israel mudou-se para Paris, onde morou por dois anos sem a família, num esforço para replicar seu trabalho na Alemanha. Cuidou em especial dos imigrantes que vinham da Rússia, para que não fossem influenciados pelas ideias dos judeus franceses, dado que a cidade era um centro exposto a grande assimilação.
É difícil, em poucas páginas, englobar todos os seus projetos (como a primeira edição de partes do Talmud para facilitar o acesso dos judeus menos letrados) e contar todos os detalhes de sua grande envergadura espiritual, mas Rav Israel não cessava de pensar, inovar, organizar e influenciar. Pensava sempre em Am Israel, não se conformava com o distanciamento dos Yehudim do caminho do Temor a D’us verdadeiro. Rav Israel Lipkin era mais que um Tzadik, era um exemplo verdadeiro do Chassid descrito no livro “Messilat Yesharim”.
As vertentes do Mussar
Rav Israel de Salant (ou MiSalant) não educava os alunos de modo uniforme. Cada um tinha suas especificidades e, portanto, era educado segundo suas tendências. Assim, cada aluno captava uma faceta diferente da grande personalidade do mestre. Abordaremos aqui três vertentes do Movimento do Mussar a partir de três de seus maiores líderes: Rav Simcha Zissel Ziv (conhecido como “Saba de Kelem”), Rav Natan Zvi Finkel (“Saba de Slabodka”) e Rav Yossef Yozel Horowitz, (“Saba de Novardok”). “Saba” quer dizer “ancião”, “vovô”, e é um apelido carinhoso para os grandes mestres do Mussar.
Saba MiKelem, a ordem!
NATAN PRESMAN
2º ano do ensino médio
Rav Simcha Zissel Ziskind Ziv
Nasceu em Kelem (Lituânia), em 1824. Após casar-se, foi visitar com desconfiança a nova instituição do Rav Israel Lifkin MiSalant em Kovna, tornando-se depois um dos alunos mais brilhantes e mais próximos do líder. Quando seu mestre se mudou para a Alemanha, Rav Simcha Zissel voltou para Kelem, onde continuou a progredir em estudos e espiritualidade.
Tornou-se diretor do Talmud Torá local, mas o transformou em um Beit Talmud exemplar, com um nível elevadíssimo de Torá e Mussar e com a educação transmitida de acordo com seus princípios. Uma delação falsa o obrigou a mudar a escola para o povoado de Grubin, onde os alunos dormiam, comiam e viviam no Campus. A Yeshivá cresceu muito em número, e o local em Kelem restringiu-se a ser um centro de Mussar para alunos mais velhos. Já estava com idade avançada quando foi obrigado a fechar a Yeshivá em Grubin, e então se concentrou num grupo bem mais seleto de alunos maiores em Kelem.
As duas instituições – cunhadas em todos os detalhes pela visão do Saba – foram umas das principais formadoras dos líderes da segunda geração dos mestres do Mussar. Muitos dos primeiros alunos de Rav Israel MiSalant enviavam seus discípulos para estudarem durante um período com o Saba MiKelem.
Dentre seus famosos alunos estiveram: Saba de Slabodka, Saba de Novardok, Rav Isser Zalman Meltzer (que se tornou Rosh Yeshivá de Slutsk e depois em Jerusalém), Rav Leib Hassman (Mashguiach em Telz e depois na Yeshivá Hevron em Jerusalém), Rav Reuven Dov Dessler (que se tornou grande comerciante e depois dirigiu o Talmud Torá de Kelem), Rav Moshe Mordechai Epstein (Rosh Yeshivá de Slabodka e Hevron), Rav Naftali Trop (Rosh Yeshivá Radin), Rav Yossef Leib Bloch (Rosh Yeshivá de Telz e Rabino da cidade) e muitos outros que ensinaram e influenciaram dezenas de milhares de estudantes.
Sua visão de Mussar era fundada no princípio de que os atos externos do indivíduo influenciam suas características internas; portanto, é crucial a autodisciplina no comportamento. Serenidade, lucidez no controle dos próprios atos, organização, coerência e honestidade eram os pilares de Kelem. O trabalho sobre si deve ser sistemático, persistente, sem pular degraus e permanente, pois mesmo em grandes pessoas os instintos negativos podem irromper.
Sua Yeshivá não admitia atraso ou qualquer tipo de desorganização, pois tais comportamentos demonstram que ainda há algo a ser consertado internamente. Por isso, a Yeshivá de Kelem ficou conhecida por sua impecabilidade nos horários, na ordem etc. Além da autodisciplina minuciosa, a própria Yeshivá deveria estar sempre bem arrumada. Conta-se, por exemplo, que numa noite de Yom Kippur o Saba notou que a Natlá – utensílio usado para a ablução das mãos – não estava no lugar de costume. No discurso da noite, o assunto principal foi sobre “como pode o Natlá estar fora do lugar?”, “a desordem externa influencia nosso ser interno!”, “façamos Teshuvá em nossos atos!”.
Atitudes impulsivas também não eram bem-vistas. Tudo era pesado à luz do intelecto, decidido e então aplicado: a falta de análise e de pensamento sobre o comportamento é o início do erro, do deslize e das quedas. Contam que o Saba recebeu sobre si nunca se “enervar” antes de vestir uma roupa específica.
Nesse sentido, o controle sobre o próprio pensamento era tomado como necessário para que preocupações não interfiram na concentração do estudo e do cumprimento das Mitzvot. Contudo, a sensibilidade da alma do Saba e sua empolgação eram sentidos no seu estudo de Mussar e durante suas profundas palestras sobre os conceitos do movimento e conhecimento da alma humana.
Para o Saba, pensar de modo recorrente nas ideias estudadas transforma-as em valores e verdades concretas. Por exemplo: o aprofundamento constante nos detalhes da Saída do Egito tem a força de incutir a amplitude da providência Divina; a contemplação da Criação e de suas maravilhas tem a capacidade de aumentar nossa fé e nosso amor ao Criador.
O cuidado com a verdade e a coerência era seguido piamente. Conta-se que, certa vez, Rav Simcha Zissel passava ao lado de uma casa onde alguém tocava piano. Conhecendo a melodia, notou que algumas notas haviam sido trocadas. O Rav sentiu obrigação de alertar a pessoa que estava tocando, pois não se deve acostumar a falsificar de nenhuma forma!
O Saba MiKelem também é conhecido por ter dado bastante ênfase ao valor de cada segundo de estudo da Torá. Costumava dizer: “Quando D’us criou este mundo, o faria mesmo para que apenas um judeu dissesse Baruch Hu Ubaruch Shemô. Mil vezes o fazendo, não chega nem sequer ao equivalente à recitação do Amen Yehê Shemê Rabá. Dizendo-o mil vezes, não se equipara ao valor de uma palavra da Torá.”
Em Kelem e Grubin, fixou-se também um tempo de estudo especial de Mussar: 5 minutos antes da reza de Minchá, para que as pessoas valorizem os minutos. Não havia nenhuma interrupção nem distração entre os estudos da Yeshivá: eles eram aproveitados do início ao fim, sem atraso e sem terminar antes. A agenda do próprio Saba reservava muitas horas para estudo – eram horários intocáveis. Conta-se que uma vez Rav Simcha estudava de maneira tão profunda em seu quarto que, mesmo tendo chegado um senhor muito importante na região para conversar com o Rabino, ele não atendeu – por mais que o homem batesse na porta até as paredes da casa estremecerem.
Outro ponto trabalhado em detalhes era o cuidado com o próximo, um dos princípios mais importantes do homem completo segundo a Torá. Semanalmente, grupos de alunos se reuniam para tomar decisões de aprimorar o serviço Divino e o comportamento com o semelhante. Por exemplo: aqueles que faziam Netilat Yadaim costumavam encher a caneca para o próximo usar.
Os princípios de Kelem também incluíram entender o valor próprio e seu nível de responsabilidade. Por isso, os estudantes andavam bem-vestidos. Rav Simcha costumava dizer: “Um aluno que despreza o cuidado com suas roupas profana O Nome Divino”. Ou seja: um estudante de Torá carrega responsabilidade, e andar malvestido é um desprezo a D’us.
Outra inovação se deu nos estudos da Yeshivá (dos jovens). Até então, as Yeshivot limitavam-se ao ensino de Torá e de seus comentaristas. O Saba MiKelem autorizou seguir minimamente as exigências governamentais para outras matérias, tais como gramática e aritmética. Contudo, me supervisionava cuidadosamente a escolha de todos os professores. Assim, ensinar as matérias laicas, além de ajudar o estudo da Torá com conhecimentos específicos, evitava que os pais enviassem seus filhos a escolas públicas, que não abordavam a Torá. Deve-se notar que, até então, no Leste Europeu muitos estudiosos da Torá não sabiam o idioma local – comunicavam-se somente em iídiche. O próprio Rabi Israel de Salant (o grande mestre da linha que Rav Simcha seguia) incentivou seus alunos a aprenderem outros idiomas, de maneira que a Torá pudesse ser demonstrada para o público distante de maneira mais honrosa.
Como um dos seguidores mais famosos do Saba, destaca-se o Rav Eliahu Eliezer Dessler, o autor do livro “Michtav Me’Eliahu”: seu pai havia sido um aluno próximo de Rav Simcha Zissel e ele próprio frequentou as mesmas instituições. Ele costumava dizer: “mais do que estudo de filosofia, Kabalá ou de assuntos como o entendimento dos maus impulsos, o Mussar é um estudo sobre si mesmo para si mesmo.” Relacionava-se com jovens não só das Yeshivot, mas também dos mais afastados do judaísmo, e imersos nos pensamentos modernos. Mais tarde se tornou um dos pilares do judaísmo da Inglaterra. No final de seus dias, foi Mashguiach da Yeshivá de Ponovitz, em Bnei Brak.
Assim, as ideias de Kelem revolucionaram e ainda revolucionam o mundo do Mussar, com uma ampla visão do caráter humano, formando líderes e estudiosos de Torá e Mussar.
O Saba MiKelem incentivou o ensino de matérias laicas nas Yeshivot, pois essas disciplinas ajudam no estudo da Torá
Saba MiSlabodka, a grandeza
HAIM KLEIN
2º ano do ensino médio
Rabi Natan Zvi Finkel
(1849-1927), mais conhecido como “Saba de Slabodka” (ou Saba MiSlabodka), foi um dos maiores ativistas do movimento Mussar. Aluno do grande “Saba de Kelem”, trabalhou como educador nas instituições de Kelem, mas com o tempo, desenvolveu sua própria linha.
Embora discordasse de seu Rabino em certos pontos educacionais, nunca deu publicidade a essa diferença – mais ainda: mandou muitos alunos ficarem alguns períodos com seu mestre e ele próprio passava os Haguim com o Rav em Kelem, onde sua família morava.
Fundamentando-se em Hazal (ensinamentos de nossos sábios) que atribuem as tragédias da época dos Shoftim (juízes) à falta de iniciativa dos Sanhedrin de ensinar Torá nas diversas cidades de Israel, foi incansável em abrir instituições de Torá nas quais se educava segundo a linha e os princípios do Mussar.
No início, organizou grupos de estudo para Talmidei Chachamim em Kovna e Slabodka, sempre permanecendo nos bastidores e colocando outros sábios na liderança.
Assim também formou um pequeno núcleo de estudantes em Telz, iniciativa que se tornou a semente da fundação da famosa Yeshivá da cidade. Em 1882, abriu sua própria Yeshivá em Slabodka – o Rosh Yeshivá era Rav Mordechai Epstein, mas tudo acontecia segundo as instruções e a supervisão do Saba.
Enviou grupos de alunos para abrir e desenvolver muitas outras Yeshivot, como em Slutsk (encabeçada pelo Rav Isser Zalman Meltzer), Meltsh (encabeçada por Rav Shimon Shkop), Stutztin (encabeçada por Rav Leib Hassman), Shiklov, Lódz etc. Em todas elas usava-se o método Mussar. O Saba incentivava os alunos a abrir nas redondezas Yeshivot para estudantes mais jovens, de onde vinham depois os alunos para as Yeshivot maiores.
Rav Natan Zvi conseguiu influenciar mesmo Yeshivot já existentes, mais conservadoras, como a de Radin (para onde enviou Rav Naftali Trop e Rav Yerucham Leibowitz, que depois se tornou Mashguiach Ruhani em Mir) e a de Mir (onde seu filho Rav Eliezer Yehuda Finkel casou-se com a filha do Rosh Yeshivá Rav Kamai). Até seus críticos no método Mussar que lideravam instituições (em Ponovitz, Tevrig, Rusien etc.) pediam para Rav Natan Zvi enviar seus alunos para fortalecer as instituições.
Dessa maneira, ele se tornou uma autoridade por trás da grande maioria das Yeshivot, além de influenciar a nomeação de Rabinos e os assuntos comunitários. No final da vida, decidiu transferir parte da Yeshivá para a Terra de Israel, em Hevron. Ele próprio terminou seus dias na Terra Santa, lugar com o qual sempre havia sonhado e sobre cuja santidade discursava frequentemente. A filial em Hevron foi a primeira das Yeshivot de Mussar da Lituânia que se instalou em Israel.
Dentre os grandes rabinos que saíram da Yeshivá de Slabodka estão: Rav Aharon Kotler, Rav Yaacov Kamenetsky, Rav Yechiel Weinberg, Rav Yitzchak Hutner e Rav Avraham Eliahu Kaplan. O legado deixado pelo Saba de Slabodka e por sua Yeshivá foi uma nova fonte de Torá, que deu origem à boa parte das Yeshivot existentes nos Estados Unidos e em Israel. É grande, portanto, sua influência nos dias de hoje: nunca na história de Am Israel tivemos tantas Yeshivot e tanto estudo de Torá.

