O ouro e a honra ao Todo Poderoso

Encarte especial • Ucrânia

O ouro e a honra ao Todo Poderoso

Se quando alguém visita um rei veste-se de modo perfeito, quanto mais para o Criador de tudo!

AVRAHAM KATZ | 8º ano do fundamental | Or Israel College (p. 54-57)

O rav Israel de Ruzhin (1796-1850), bisneto do Maguid de Mezeritch (sucessor do Baal Shem Tov), serviu Hashem de uma forma muito diferente da de seus antepassados. Rabi Israel era um “monarca” em sua corte Chassídica.

Porém, quem começou o novo caminho não foi ele, mas seu pai, Rav Shalom Shachna de Prohobisht. Rav Shalom morava em Ruzhin, cidade na Ucrânia. Comportava-se como um rei. Usava um elegante casaco de lã, com botões de ouro incrustados de diamantes, e a fronha de sua almofada era feita de fios de ouro. Seus cabelos penteados brilhavam com seus Peot curtos. Vivia numa bela casa, e exigia que sua mulher se vestisse com elegância.

Ele explicava: “Quando alguém se veste com roupas bonitas e com elegância, cumpre a Mitzvá do Passuk ‘Prepare-se para saudar teu D’us, Israel!'”. Quando alguém se apresenta para um rei de carne e osso, assegura-se de que todas as suas vestimentas estejam perfeitas, quanto mais para o Criador de tudo! Rav Shalom era diferente até mesmo nas práticas de Avodat Hashem. Enquanto todos os Chassidim na época de Elul ficavam estudando o dia todo no Beit Midrash, ele rezava na floresta, e só voltava para rezar Minchá.

Quando Rav Shalom Shachna faleceu, foi sucedido pelo seu filho mais velho, Rav Avraham. Pouco depois, Rav Avraham faleceu sem deixar filhos, e Rav Israel tornou-se Rebe. Logo ele começou a atrair muitos Chassidim. Não à toa: vários grandes Rabanim da época falavam sobre sua grandeza. Como o famoso Chozê de Lublin, que dizia que, apesar de as pessoas só alcançarem a compreensão verdadeira aos 40 anos, Rav Israel era uma exceção. Sua capacidade intelectual e sua santidade eram únicas. Muitos seguidores do Rav Israel vieram também graças ao Rav Uri de Sterlik, apelidado “Saraf” (o anjo), que antes de seu falecimento ordenou seus Chassidim a adotarem Rav Israel como Rebe.

Rav Israel seguiu os costumes de seu pai. Ruzhin era toda recheada de nobreza e majestade no serviço de Hashem! Andava sempre em sua carruagem dourada e vestia-se muito elegantemente, a tal ponto que os nobres da cidade tinham inveja de suas mantas e de suas lindas botas lustradas. Mas temos que enfatizar que, apesar de toda a pompa, o Rebe sabia que nada podia estar mais longe da verdade do que isso. Negava prazeres a seu corpo e contentava-se com pouco, mas se vestia assim em honra a Hashem e para assegurar à Torá um ar de importância e imponência frente a seus Chassidim.

Rav Israel andava em carruagem dourada, e até os nobres da cidade tinham inveja de suas mantas e de suas lindas botas.

Uma história exemplifica muito bem isso. Certa vez, numa noite fria, o Rebe foi fazer a Brachá da lua nova. Passou um bom tempo parado, rezando na neve. Quando saiu, viram manchas de sangue na neve, e descobriram que as botas do Rebe nem tinham solas.

Onde quer que Rav Israel fosse, era seguido por multidões. Certa vez lhe perguntaram como conseguia evitar o sentimento de orgulho nos momentos em que multidões iam atrás dele. O Rebe respondeu com uma parábola:

“Havia um rei que não conseguia mais governar sobre todo seu território, e então decidiu nomear governantes para as cidades. Certa vez, quando foi visitar uma cidade, pediu que o governante lhe acompanhasse para passear pela rua principal. Logo, multidões começaram a empurrar para ter uma visão melhor do governador, enquanto o rei passou despercebido. O governador ficou todo envergonhado — afinal, tudo aquilo era mérito do próprio rei.”

Da mesma forma explicou o Rebe: “Quando vejo a maneira que me tratam, penso: ‘Imagina se tratassem Hashem dessa forma!’. Nem passa pela minha cabeça o orgulho, pois não é meu mérito.”

O czar Nicolau I e os Maskilim (judeus iluministas) não gostavam desse estilo de nobreza do Rebe — para eles, demonstrava que ele queria concorrer com o czar. Em 1836, aos 40 anos, o Rebe foi preso sob as acusações (falsas, é claro) de que havia ordenado a execução de dois informantes judeus. Após quase quatro anos de interrogatório, foi detido numa cela escura e úmida. Ficou lá por 22 meses. Foi liberado para voltar a Ruzhin, proibido de exercer sua função de Rebe. Algum tempo depois, quando soube que estavam planejando sentenciá-lo ao exílio na Sibéria, realizou uma fuga milagrosa, atravessando a fronteira austríaca. Quando os soldados souberam de sua fuga foram atrás dele, mas voltaram de mãos vazias. O czar continuou tentando prender o Rebe, mas o governo austríaco recusou: o Rebe poderia trazer benefícios à economia da Áustria, atraindo comerciantes judeus ricos para lá. Ele então pôde ficar no país e se estabeleceu na cidade de Sadigura, onde o governo austríaco o declarou cidadão. Os Chassidim do Rebe o seguiram e lá estabeleceram a Kehilá.

Logo depois, um Chassid lhe perguntou por que ele não se vingava do Czar, que o tinha mantido preso por 22 meses, uma vez que o Rebe podia fazer milagres. Deu-se o seguinte diálogo:
— Você acredita nos milagres que Hashem fez no Egito?, perguntou o Rebe.
— Claro que sim!
— Você acredita que Hashem ainda tem o mesmo poder para fazer milagres?
— Claro!
— Bem, se é assim, por que Hashem não castigou o Czar ainda? E, se Hashem não sentiu que é a hora de castigá-lo, por que o meu silêncio incomoda a você?

Apesar de andar com toda pompa, o Rebe sempre deu ênfase à santificação dos pensamentos e à ajuda a pessoas de todos os níveis.

Apesar de toda a pompa, o Rebe sempre deu grande ênfase à santificação de pensamentos, e dizia a seus Chassidim que começar o dia com pensamentos em Hashem é um sinal de que o dia poderá ser muito bom. Todos notavam sua constante consciência da presença de Hashem. O famoso Rav Mordechai de Nadvorna dizia que quem quisesse ver o verdadeiro temor a Hashem deveria observar a conduta do Rebe de Ruzhin: seus joelhos se batiam de tanto medo por sentir Sua presença. Ele costumava dizer que o maior erro que um Yehudi pode cometer é esquecer de que é um Ben Melech — filho do Rei. Porque, enquanto ele estiver com isso na cabeça, vai ser muito mais difícil cair.

Mesmo no nível tão elevado que o Rebe estava, sempre se preocupou em ajudar pessoas de todos os níveis — como certa vez em que recomendou, a alguém que queria saber como fazer Teshuvá, a apenas segurar o Sidur nas mãos durante as bênçãos e rezas e não pronunciá-las de cor. Tinha também um interesse especial em ajudar os judeus que moravam em Eretz Israel em condições precárias. Grande parte deles sobreviveu graças à ajuda financeira enviada sob monitoramento do Rebe.

Durante a vida, sempre quis se estabelecer em Israel. Dizia que a redenção final começaria com a migração gradual dos judeus para Israel, como nos tempos de Ezra Hassofer. E que, se os judeus não tivessem méritos, a Gueulá viria pela decisão dos demais países de dar Eretz Israel aos judeus. Quando ouviu que o Czar queria erguer uma grande igreja na cidade velha de Jerusalém, ele chamou seu Chassid Nissan Beck (que morava lá) e lhe deu uma grande soma para que se antecipasse e comprasse o terreno designado. Uma grande sinagoga chamada Tiferet Israel foi erguida por seus Chassidim (destruída pelos jordanianos em 1967), e o complexo russo teve de encontrar um local mais distante (conhecido hoje como Migrash Harussim). Contudo, apesar de seu grande desejo de emigrar, ele avaliou que não podia abandonar seus Chassidim.

Rav Israel passou o resto de sua vida em Sadigura, onde morreu em 1850, aos 54 anos. Seus costumes não foram compreendidos pela maioria, mas todos o consideravam um grande Tzadik de sua geração. Grandes Tzadikim da época, como o Rebe de Zanz, o Chidushei Harim e o Rebe de Apt, não economizaram elogios sobre o Rebe de Ruzhin durante sua vida e após a sua morte. Dizia-se, por exemplo: “Nunca vi alguém tão versado em Torá como o Rebe de Ruzhin!”

Rav Israel deixou no mundo a dinastia de Ruzhin-Sadigura, com o grande princípio de temor a Hashem. Após sua morte, todos os seus seis filhos se tornaram Rebes e abriram centros Chassídicos, como a Chassidut de Sadigura, Bohov, Boian e Chortkov.