Encarte especial • Polônia
Rebe de Kotzk, um anjo de fogo
A Chassidut de Kotzk só teve um Rebe, Menachem Mendel, que se enfurecia diante da imperfeição e da preguiça
MEIR ISRAEL KATZ / LEVI KATZALA
2º ano do ensino médio
Na introdução de seu livro “Sne Boer Bekotzk”, Meir Urian escreve que existem três correntes Chassídicas que se destacam por sua singularidade: Chabad, Breslev e Kotzk, que não é muito conhecida.
Rebe Menachem Mendel de Kotzk (1787-1859) era o único Rebe dessa Chassidut. Assim como a de Breslev, só teve um Rebe. Alguns de seus alunos fundaram outras Chassiduiot, mas Rebe de Kotzk só existiu um. Era um gênio de proporções raras, uma figura enigmática, quase mística, conhecido por seu jeito peculiar de enxergar o mundo com uma filosofia incisiva e por seus ditos perspicazes. Como o Rav Daniel Oppenheimer resume em seu livro “Chassidim”: “Em sua forma de pensar, a vida era ou branca ou preta, sem tons intermediários de cinza… se enfurecia diante da imperfeição e da preguiça”.
O “Rebe Mendel”, como costumava ser chamado, não era um mestre fácil de se seguir. Exigia dos alunos o mesmo que exigia de si, o que não era pouca coisa. Os alunos passavam meses, às vezes anos, sem permissão de voltar para casa. A pobreza era extrema, todos viviam do dinheiro da caixa de Tzedaká que havia na sinagoga. Mesmo assim, seguiam seu mestre com felicidade no coração.
Rebe Mendel sabia que o que ele procurava não poderia ser alcançado pelas massas, e sim por Yechidei Segulá, pessoas fora dos padrões. Ele exigia nada menos do que a perfeição – é nesse ponto que se diferencia de outros Rebes. Enquanto o Baal Shem Tov fundou a Chassidut para os judeus simples que não sabiam estudar, para levantar o moral das massas devastadas pela ignorância e pelas dores do exílio, Rebe Mendel fundou sua corte com o objetivo de formar uma Chassidut de anjos que ignoravam os prazeres deste mundo.
…estuda na noite de Shabat. Porém, nessa hora todos estão cansados do trabalho da semana: deitam-se no sofá para ler, adormecem, o livro escorrega de suas mãos e cai no chão. Por que deveria escrever um livro para ele terminar no chão?
Não sabemos se foi nesse momento que o Rebe disse outra de suas famosas frases: “Nem tudo que é pensado precisa ser dito, nem tudo que é dito precisa ser escrito, nem tudo que está escrito precisa ser publicado e nem tudo que é publicado precisa ser lido” mas ela ilustra bem essa história.
A verdade é que o Rebe chegou a tentar escrever um livro, mas toda vez que acabava uma página notava que havia um ponto que não fora escrito com intenção totalmente verdadeira e pedia para queimarem a página. Até que desistiu. Embora tivesse muitos comentários escritos a mão, mandou queimar estes antes de sua morte.
Rebe Mendel não precisou de nenhum livro para se tornar conhecido, ele é um livro por si só. Procurava várias vezes por dia nas profundezas de seu coração se ainda havia algum resquício de mentira ou de intenções secundárias. Porém, procurar a verdade sem ter consciência da existência de D’us não nos leva a nada ou pior: leva à mentira. Em Kotzk, um princípio leva a outro.
A EMUNÁ SOMENTE ATRÁS DO ESTUDO
“Emuná” é o nome dado à fé em D’us, à crença de que tudo vem Dele e é controlado por Ele, o Todo Poderoso, a raiz de todo o bem. Esse é um dos treze princípios de fé listados pelo Rambam. Todos em Kotzk sabiam que é passageira a Emuná vinda através do testemunho de milagres e da escuta de contos de grandes Tzadikim, e que também é superficial a fé vinda da contemplação da perfeição da natureza e da reflexão sobre a impossibilidade de que um mundo tão complexo possa ter surgido do nada.
O único caminho de chegar a uma Emuná duradoura é através do estudo da Torá. Quando um Chassid senta-se e estuda regularmente e sem interrupção, ele alcança esse princípio.
No “Pirkei Avot” está escrito que uma pessoa que interrompe o estudo para apreciar uma árvore (e assim chegar à consciência da existência de D’us) merece ser castigada. O que o coitado fez? Só quis se conectar com o Criador de outra forma! Responde o Rebe: conectar-se com D’us através da natureza é para as gerações anteriores à entrega da Torá; usar esse método hoje é um ato de rebeldia. O Rei dos Reis nos deu a Torá, que não é apenas um livro de regras e condutas, mas também a fonte da vida e de nossa fé, o que só é possível para quem se aprofunda nela. Os milagres não são a base da Emuná, porém podem ser usados para dar um “start” na fé. O Kotzker preferia preencher judeus de Emuná com muito estudo, ideias concretas e trabalho duro. Como afirmou: “eu posso ressuscitar os mortos, mas prefiro ressuscitar os vivos” – obviamente através do esforço deles.
O Rebe costumava dizer: “uma pessoa crédula é uma tola, um homem excessivamente estudado é um herege, um indivíduo piedoso é um hipócrita, mas juntando tudo se faz um homem perfeito”. Uma pessoa que crê em tudo é facilmente enganada. Uma pessoa excessivamente estudada que não crê de nada adianta, já que nega a existência de D’us. Uma pessoa muito piedosa, sem procurar a verdade, é capaz de ajudar até mesmo um perverso. Nenhum desses três princípios dão frutos sozinhos, todos eles estão interligados, um completa o outro.
O Rebe Mendel também costumava dizer que “não há nada mais completo do que um coração quebrado”. Uma pessoa para a qual tudo está bom não acha que pode melhorar; já um coração quebrado sempre procura algo para preenchê-lo e está constantemente melhorando.
Kotzk é verdade, verdade e verdade! Procurar a sua verdade. Procurá-la sem medo. Procurar nada menos que a verdade absoluta, custe o que custar!
Or Israel College | Páginas 50-53

