História
Os Gueonim
A história e a importância dos sábios que ajudaram a consolidar e manter as tradições judaicas
HAYIM OZER SALOMON
1º ano do ensino médio
Muitos de nós talvez não tenhamos ouvido falar sobre os Gueonim: quem foram, o que fizeram?
Eles viveram em um período posterior aos sábios da era talmúdica, cujos ensinamentos compõem o principal texto do Talmud. Aqui serão abordados alguns tópicos para nos situarmos melhor nessa importante época de Am Israel.
PERÍODO HISTÓRICO
A época em que esses sábios viveram abrange cerca de cinco séculos, desde a conclusão do Talmud Bavli (da Babilônia), aproximadamente no ano 4260 (500 D.E.C), até o falecimento de um dos últimos Gueonim, Rav Hai Gaon, em 4798 (1038 D.E.C).
Eram tempos de disputa pela liderança e hegemonia do povo entre dois focos de Torá: Eretz Israel e Babilônia, lugares onde foram compiladas as duas obras do Talmud, o Talmud Yerushalmi (de Jerusalém) e o já citado Talmud Bavli. A grande maioria do povo (90%) morava entre o Egito, Eretz Israel e, principalmente, Babilônia (onde hoje é o Iraque). Os Gueonim, junto com o Rosh Galuta (chefe do exílio), tinham cargos oficiais reconhecidos pelos líderes dos reinados e poder de legislar, julgar e impor suas decisões sobre a diáspora judaica.
Um dos mais conhecidos Gueonim foi Rav Saadia Gaon, nascido no Egito em 892 (D.E.C.) e desde jovem reconhecido como prodígio. Estudou em Tvéria na época de Moshe Ben Asher, que escreveu o Código de Alepo (Keter Aram Tzova), o texto oficial do Tanach aceito por Am Israel. Foi rabino em Alepo e depois assumiu a liderança da Yeshivá de Sura. Tornou-se famoso por escrever a todas as comunidades seu esclarecimento sobre o calendário judaico, unificando-o numa época em que uma disputa entre um sábio da Babilônia e outro de Eretz Israel quase fez com que Pessach fosse festejado em datas diferentes. É lembrado por combater uma linha então emergente no judaísmo: os caraítas – grupo que definia suas leis baseado apenas na Torá escrita, ignorando os ensinamentos orais que a detalham e as tradições dos sábios. Rav Saadia Gaon rebateu seus argumentos em vários escritos, afastando dessa forma uma grande ameaça à tradição judaica.
Além desse movimento que surgiu dentro do próprio judaísmo, a época também foi caracterizada pela expansão da religião muçulmana, que no início ameaçou a continuação da vida religiosa judaica. Mais tarde, judeus do Oriente Médio (Eretz Israel e Babilônia) migrariam para a Europa (onde o cristianismo se expandia), compelidos pela mudança do foco do comércio, iniciando uma nova fase da história judaica.
O TERMO “GAON”
A tradução literal da palavra “Gaon” (singular de Gueonim) seria “gênio”, mas há várias opiniões quanto a seu verdadeiro sentido. Pode significar “grandeza” ou “força”, havendo até opiniões de que o termo vem do árabe ou do persa. O mais provável é que seja uma abreviação de “Rosh Yeshivá (líder/diretor da Yeshivá de) Gueon Yaakov”, que era o nome da principal Yeshivá em Eretz Israel, nome baseado em um versículo do Tehilim (47:5).
OS CENTROS: SURA E PUMBEDITA
O período dos Gueonim foi marcado pela presença de duas principais Yeshivot (centros de estudo) existentes desde a época dos Amoraim (sábios do Talmud): a Yeshivá de Sura (fundada pelo Amorá Rav) e a Yeshivá de Pumbedita (fundada pelo Amorá Shmuel), ambas na Babilônia. Lá se formavam grandes sábios, que estudavam a Torá, tomavam decisões sobre a Halachá (lei judaica) e conduziam a comunidade.
O Midrash Tanchuma (Parashat Noach 2) cita que essas Yeshivot se reuniam duas vezes ao ano, nos meses de Adar e Elul, para debater assuntos da Torá, definindo a Halachá e trazendo provas da Torá oral, da Mishná e do Talmud para solucionar as questões. Cada Yeshivá era conduzida pelo “Rosh Metivta”, ou “o líder da casa de estudos” – um Gaon que ensinava a Torá e que era líder de um Beit Din (tribunal).
As Yeshivot tinham, primordialmente, três meios de sustento: impostos cobrados de Am Israel, doações e lucros provenientes das terras de posse de cada Yeshivá.
A TORÁ DOS GUEONIM
Os Gueonim tiveram um papel muito importante na transmissão da Torá. Eles estudaram o Talmud Bavli e corrigiram suas cópias, explicaram e definiram suas opiniões a partir da lei final da Guemará. Respondiam perguntas que chegavam a eles de todos os centros judaicos do mundo, esclareceram a explicação dos versículos e definiram a Halachá em diversos assuntos, além de liderarem o povo em outros aspectos. Colaboraram para a fixação do calendário judaico e para a edição de livros que elucidavam os princípios judaicos frente a novas seitas e filosofias. Continuavam uma corrente de sabedoria e ensinamentos transmitidos por gerações, passando pelos sábios da Mishná (Tanaim), os sábios da era talmúdica (Amoraim) até os próprios Gueonim, uma corrente transmitida oralmente, de sábio a sábio, de forma contínua.
A TORÁ ORAL E A COMPILAÇÃO DE LIVROS
Os ensinamentos das épocas anteriores aos Gueonim eram essencialmente transmitidos de geração em geração oralmente. Mas, durante a era dos Gueonim, houve um considerável aumento de literatura escrita e da compilação de livros, baseados no Talmud e na transmissão oral de mestre para aluno.
Os livros que começaram a ser compilados tratavam principalmente de leis (Halachá) e organização das rezas. Há livros contendo uma significativa quantidade de respostas, produzidos em grande número, principalmente, no final da era dos Gueonim.
SUA IMPORTÂNCIA NA ÉPOCA E ATUALMENTE
No período em que viveram, os Gueonim desempenharam um papel importante como líderes das casas de estudo, chefes dos tribunais, representantes da Torá, esclarecendo dúvidas sobre as bases do judaísmo. Além disso, muitos daqueles que viveram na Babilônia foram “Roshei Hagolá” – líderes da diáspora, uma tarefa que envolvia a representação do povo perante os califas e a condução de Am Israel em várias questões durante o duro exílio.
No final dessa época viveram Rav Shrira Gaon (900-1007) e seu filho Rav Hai Gaon (939-1038), líderes da Yeshivá de Pumbedita. O primeiro ficou famoso por sua Igueret, carta em resposta a um sábio de Kairouan, em que esclarece a autoridade do Talmud na lei judaica e descreve a corrente de pai para filho desde a época de Moshe Rabeinu até a época dos Gueonim. Rav Hai preparou a continuidade da tradição. Varios de seus alunos foram líderes das novas comunidades na Europa, e ele próprio visitou diversos centros judaicos no continente, além de manter uma vasta correspondência com estes.
Porém, a influência desses sábios se estende até os dias de hoje. Eles continuaram a corrente de tradição e ensinamentos, estabelecendo um elo que conecta a época do Talmud às gerações posteriores, adicionando explicações à Torá e clareando, através de suas respostas, princípios judaicos que nos guiam até nossos dias. A Torá oral foi perpetuada através de seus livros, garantindo que a tradição judaica jamais fosse esquecida.
FONTES: “TORAT HAGUEONIM UTKUFATAM” (תורת הגאונים ותקופתם) POR RAV SHLOMO ZALMAN HAVLIN; “HERALD OF DESTINY”, POR BEREL WEIN (EDITORA FELDHEIM)
Or Israel College | Páginas 28-31

