Homenagem
Rav Jonathan Sacks:
O poder dos ideais judaicos
Uma história sobre a importância de termos orgulho de nossas tradições
JOE DE PICCIOTTO
1º ano do ensino médio
Certa vez o Rabino Jonathan Sacks foi convidado pelo príncipe herdeiro Charles para um jantar no Palácio de Buckingham, em Londres – um convite que qualquer um gostaria de receber. Ele ficou honrado por ter sido chamado para a ocasião, em que estariam todos os membros da Câmara dos Lordes e representantes religiosos. Porém, havia um problema: a comida provavelmente não seria kasher. Como proceder? Por um lado, sentia-se honrado em ir ao jantar exclusivo; por outro, não poderia ir sem comer. Decidiu contar a verdade: respondeu dizendo que se sentia muito honrado pelo convite de Sua Alteza Real, mas que não poderia comparecer por seguir a lei judaica de apenas comer comida kasher. Passou-se um tempo e o Palácio respondeu ao Rabino, pedindo-lhe que indicasse um catering kasher e eles providenciariam tudo para ele estar presente. O Rabino ficou animado e lisonjeado.
Chegou a tão esperada noite. Compareceram os membros da Câmara dos Lordes e os representantes religiosos. Cada um sentou-se em seu lugar; no lugar do Rav Sacks estava a comida kasher e os utensílios que usaria. Antes da refeição, o príncipe Charles deu as boas-vindas e disse a todos que aquela noite seria especial e diferente. Para que todos se conhecessem, durante o jantar os convidados teriam que trocar de lugares para conversarem entre si.
No início o Rav ficou preocupado: como iria mudar de lugar, se o seu era o único com características kasher? Apreensivo, decidiu levar suas coisas ao mudar de assento. Todos estavam apenas se levantando e indo para seus novos lugares, mas o Rabino levava de um lugar para o outro seus talheres e seu prato de comida. Não é um gesto bonito para fazer em um jantar oficial do Palácio, mas o Rabino sentiu que era o certo.
O jantar foi um espetáculo. Ao final, todos foram cumprimentar o príncipe e os membros reais que estavam presentes. Na vez do Rav Sacks, o príncipe lhe perguntou por que durante o jantar levava pratos e comida consigo. O Rabino explicou que ele comia só comida kasher, a dieta judaica. O príncipe ficou surpreso e respondeu: “Como é bom ver pessoas com ideias fortes, que se comprometem a segui-las”. Dali se prolongaram em mais alguns comentários.
Um homem atrás do Rabino, outro judeu, mas que não seguia os costumes e leis judaicas, ficou surpreso com o fato de o Rabino ser o único convidado com que o príncipe conversou. Quando chegou sua vez de cumprimentar o príncipe, ele disse que também era judeu, esperando receber a mesma atenção que o Rabino havia recebido. Mas o príncipe apenas o saudou rapidamente, sem nenhum comentário especial.
Desse episódio aprendemos que sermos nós mesmos na frente de pessoas de outras culturas não nos torna fracos, pelo contrário, nos torna figuras respeitáveis. Quando temos orgulho e convicção de nossas raízes e de nossos costumes, os outros passam a nos enxergar também com respeito e honra.
Homenagem
Rabino, lorde e cavaleiro
Nascido em Londres em 1948, Rav Sacks foi Rabino-chefe do Reino Unido e da Commonwealth (comunidade das nações) entre 1991 e 2013. Muito influenciado pelo Rebe de Lubavitch Menachem Mendel Schneerson, que lhe ensinou a importância de compartilhar a fé judaica não só com judeus, mas com toda a humanidade, acreditava que a ciência e a religião estão conectadas, sendo compatíveis uma à outra.
Em 2005, foi condecorado pela rainha Elizabeth como Cavaleiro por seus serviços à comunidade judaica e às relações inter-religiosas. Ganhou o título de Sir. Em 2009, recebeu um lugar na Câmara dos Lordes como membro apartidário, recebendo o título vitalício de Lorde, sob o título de Barão Sacks de Aldgate. Foi autor de mais de 35 livros; o último deles, “Morality: Restoring the Common Good in Divided Times”, ficou na lista dos dez bestseller do Sunday Times.
Infelizmente, no Shabat de 7 de novembro de 2020 ele faleceu, deixando um legado não só na comunidade do Reino Unido, mas no mundo inteiro. Após sua morte, várias figuras públicas o homenagearam, inclusive o próprio príncipe Charles, que o caracterizou como “amigo constante” e “valioso conselheiro” e elogiou sua “consciência espiritual e sua abrangente e esclarecida percepção filosófica e histórica”.
Homenagem
Por que sou Judeu?
Um texto inspirado no artigo do Rav Sacks “Why I am a Jew?”, adaptado por Joe de Picciotto
Em algum momento em nossa vida já nos questionamos: “Quem sou eu? De onde venho? Qual minha missão?” Para responder, é necessária uma reflexão profunda, que nos leva a perguntar: Por que sou judeu?
Eu sou judeu porque o judaísmo é algo global, completo e perfeito, e creio que inclui em si respostas para toda a complexidade da Criação e da vida. Sou judeu não por causa do antissemitismo. O que me define não é o que acontece comigo, mas sim a missão pela qual fui enviado para este mundo. Sou uma pessoa de fé, não de destino.
Sou judeu porque fui convidado a escrever um capítulo sem fim, num espaço e tempo ilimitados, assim como já o fizeram os meus antepassados, que viram os milagres no êxodo do Egito e as maravilhas no Monte Sinai, na entrega da Torá. Sou aquele que vai concretizar os sonhos e desejos daqueles que não tiveram a oportunidade de viver do jeito que sonharam.
Sou judeu porque, como meus pais e avós, entendi que o mundo é guiado com um propósito de moral e ética, por meio do qual nossa tradição mostrou que a vida é sagrada e que ricos e pobres, grandes e pequenos, são todos iguais perante D’us.
Sou judeu herdeiro daqueles que, a partir da entrega da Torá e do firmamento de nosso pacto, comprometeram-se a viver conforme uma única verdade para sempre, nos bons e nos maus momentos; que em todo momento se mantiveram fiéis, quando poderiam ter seguido outro caminho.
Sou judeu porque nossa nação, mesmo nos momentos de aperto e pobreza, nunca deixou de ajudar os pobres, de resgatar nossos irmãos ou de lutar pela justiça e eu como judeu não poderia fazer menos.
Tenho orgulho de ser quem eu sou, de vir de onde vim e das raízes que me inspiraram a seguir e nunca abandonar nossos ideais, nossos valores de ética e moral e principalmente o caminho da Torá e das Mitzvot.
Or Israel College | Páginas 18-21
