Memorias Da Yeshiva R Raphael

Memórias da Yeshivá

Agosto de 1990:
o “maestro” em ação

O Sr. Joseph Safra foi fundamental para la construção da Yeshivá não só pelo que doou, mas pelo estímulo que deu às doações

R. RAPHAEL SHAMMAH
Rosh Yeshivá

Eram meados de agosto de 1990. A Yeshivá já funcionava num sítio em Itapecerica da Serra havia meio ano. O Rav Ovadia Yossef veio ao Brasil especialmente para incentivar a construção de uma sede para aquela que seria conhecida como Yeshivá de Cotia. Ele e sua família ficaram dois dias no Rio de Janeiro e depois foram levados a São Paulo no jato particular do Sr. Joseph Safra. Os alunos da Yeshivá dirigiram-se até o aeroporto de Congonhas, no hangar dos VIPs, para receber o Rabino. Foi uma grande comoção.

Na quinta-feira à noite houve uma festa aberta a toda comunidade, com a presença dos 22 Rabinos de São Paulo. Quinhentos convidados estavam na Mansão França para comemorar a ilustre visita e a fundação da Yeshivá. Uma noite de gala!

Os alunos se apresentaram: um coral cantava, um jogral de alunos contava. O professor Covre, responsável pelo currículo secular, discursou, expondo sua admiração pela instituição da Yeshivá, seu ambiente e seus alunos.

O Rabino Ovadia Yossef incentivava. Na mesa de honra ao lado do Grão Rabino estavam o Sr. Moisés e o Sr. Joseph Safra e (que D’us lhe dê vida longa) o Sr. Elie Horn.

No Shabat, o Rav Ovadia Yossef visitou as três comunidades sefaradim de Higienópolis: Beit Yaacov, Mekor Haim e Monte Sinai. O Kahal lotou as sinagogas para ouvir as mensagens do Grão Rabino. No domingo de manhã, o Rabino foi com sua comitiva até o sítio em Itapecerica da Serra para dar sua mensagem aos alunos e visitar o Beth Midrash que estava florescendo. Acompanhou-o a comitiva da diretoria da Congregação Beit Yaacov.

Então o Sr. Joseph entrou na pequena e modesta secretaria da escola, junto com o Rabino Rosner, o Sr. Elie Horn e o Rabino Shammah. Pouco antes havia dito ao Rabino Rosner que, em sua primeira visita, não acreditou que a ideia seria colocada em prática. Agora se emocionava ao ver os alunos, os Rabinos… enfim, a ideia tomando forma. Estava prevista uma noite de arrecadação na residência do Sr. Elie Horn na segunda-feira à noite. Foi então que o Sr. Joseph nos disse:

– Quero que repitam tudo o que fizeram na festa na quinta-feira à noite…

– Mas mesmo o jogral dos meninos? Eles nem estavam escalados para participar do jantar de amanhã.

– Sim, tudo igual.

– Inclusive o discurso do professor Covre?

– Inclusive o discurso do professor!

E então revelou: “Mantenham segredo, mas vou dobrar as doações na noite de arrecadação. O que o Kahal doar, vou doar a mesma quantia! Temos que construir uma sede fixa para a Yeshivá!”

Naquela época era tudo novidade. As pessoas não conheciam dinners de instituições, jantares de arrecadações públicas – o que dizer de um matching de todas as doações!

Mas não foi só isso.

Na segunda-feira à noite lá estava o Sr. Joseph administrando a arrecadação. “Precisamos construir uma sede para a Yeshivá, a família Safra dobrará a quantia arrecadada.”

Os primeiros lances foram doados. A alguns, ainda tímidos, o Sr. Joseph perguntava:
– E o Sr.? Qual a sua doação? Família tal, com quanto vocês participam?

A alguns, mais tímidos, o Sr. Joseph perguntava: E o Sr., qual a sua doação? Família tal, com quanto vocês participam?

Para os mais próximos chegou a dizer: “Não, para você esse valor é muito baixo… Vamos aumentar a doação!!”

O Grão Rabino, que estava sentado com sua família, coroou a festa com uma Misheberach a todos que doaram para a sede que mais tarde seria construída na Granja Viana, em Cotia.

Uma grande Siata Dishmaia (ajuda dos Céus) foi sentida nessa noite e nos primeiros anos de construção da Yeshivá. O Sr. Joseph foi o “maestro” da vontade de Hashem em construir a Yeshivá.
Obrigado, Sr. Joseph!

Memórias da Yeshivá

Novembro de 1988:
como tudo começou

As conversas entre o Rabino Grossman, o Sr. Elie Horn, o Rav Ovadia Yossef e o Sr. Joseph Safra para criar a primeira Yeshivá do Brasil

R. RAPHAEL SHAMMAH

Recebi um telefonema do meu tio Elie, pedindo-me para visitar alguns projetos do Fundo Comunitário em Israel. O Fundo pleiteava uma doação, e meu tio gostaria que os projetos fossem visitados e analisados.

Assim acabei chegando à escola de meninos em Migdal Or e ao Rav Grossman. Nessa escola, meninos vindos de famílias pobres recebiam uma educação completa, exemplar. Era uma obra educacional magnífica. Entre todos os projetos propostos pelo fundo comunitário, este se sobressaía. Acabaram sendo escolhidos para a doação.

Mas o Rav Grossman tinha planos ousados. Queria repetir com as meninas da Galileia seu sucesso com os meninos. Aguardou a viagem do Sr. Elie a Israel e o levou para conhecer Migdal Or. Após a visita às instalações e aos alunos, sentamo-nos na sala do Rabino. As emoções estavam à flor da pele. O Rabino explicou a importância de salvar as meninas pobres da região, e para isso eles precisavam de um valor cinco vezes maior do que o doado.

Era um salto muito grande para o Tio Elie. O Rabino Grossman propôs que o valor fosse pago em cinco anos: pegaria um empréstimo e iniciaria a obra imediatamente. O Sr. Elie pensou e acabou colocando uma condição: que o Rav Grossman se empenhasse em fazer também um projeto em prol do judaísmo do Brasil. O Rabino aceitou. E então…
Os dois deram-se as mãos, e o Sr. Elie começou a chorar sem parar. Pelo peso do compromisso, pela intensidade do momento, pela Shechiná que todos sentiam que pairava naquela sala.

Naquele momento nasceu a Yeshivá de Cotia, e também a instituição para as meninas em Migdal Haemek.

Antes de sair de Israel, comentei que estava na hora de fundar uma Yeshivá Colegial em São Paulo. Duas semanas mais tarde viajava ao Brasil o Rav Eliezer Rosner, diretor de desenvolvimento de projetos do Migdal Or e representante da família Wolfson de Nova York, para pesquisar o que poderia ser feito em prol do judaísmo brasileiro.

Visitou os principais Rabinos da cidade e avaliou com eles minha sugestão. Um dos Rabinos disse que, se conseguíssemos convencer pais a enviar alunos para uma Yeshivá, cresceriam cabelos em sua palma da mão. Mesmo assim, o Rav Eliezer Rosner abraçou a ideia.

Faltava arranjar um Rosh Yeshivá e uma base financeira para o sonho audacioso.

Após um pouco de hesitação, aceitei mudar meus planos e voltar para uma Shlichut no Brasil. O Rav Rosner e eu fomos então visitar o Rav Ovadia Yossef em sua residência em Jerusalém. Explicamos a importância do projeto para injetar novas forças na comunidade. O Grão Rabino se empolgou. Imediatamente decidiu ligar para seu amigo, o Sr. Joseph Safra, para que nos recebesse em breve e aceitasse se juntar à ideia.

Um mês mais tarde, entramos numa pequena sala na sede do Banco Safra na Rua XV de Novembro para uma conversa com o Sr. Joseph Safra.

Explicamos a ideia e pedimos que se juntasse ao empreendimento. O Rabino Rosner disse que seria um projeto para alunos que procuram algo mais em matéria de judaísmo, e que todos que olhassem para a iniciativa sentiriam um grande orgulho de ser judeu. Dessa instituição sairiam muitos líderes para o judaísmo brasileiro. O Sr. Joseph concordou em apoiar!

Agora era necessário arranjar alunos para o sonho. Quem iria confiar numa iniciativa de um Rabino jovem querendo levar adolescentes para um sítio em Itapecerica da Serra?!

Um amigo que estava organizando o nosso marketing teve a ideia de conseguir uma carta do Sr. Joseph. Eu não imaginei que teríamos seu apoio a tal ponto. Mas ele me convenceu a tentar. Em pouco tempo recebemos uma carta de apoio que acho que é a única do gênero. Ela deu credibilidade a todo o projeto e foi decisiva para convencermos a comunidade da seriedade da proposta.

Este foi o início de um grande envolvimento do Sr. Joseph com uma instituição que ajudou a construir o judaísmo no Brasil!
Obrigado, Sr. José!

Memórias da Yeshivá

Junho de 1992:
compromisso de 5 anos

A ideia inicial era ficar por quatro anos no Brasil – quando muito, cinco. Até agora já se passaram 32…

R. RAPHAEL SHAMMAH

O jantar de arrecadação foi um sucesso. Já havíamos comprado o terreno após avaliar mais de 30 opções. O projeto do Campus da Yeshivá estava sendo desenvolvido pelo arquiteto Maurício Kogan. O Estado de Israel, através de um fundo do Ministério da Educação, iria participar com um terço do valor da construção.

A mensagem da Yeshivá à comunidade era de construção do judaísmo. Jovens estavam prontos a se empenhar numa experiência de imersão no judaísmo sem abrir mão da excelência nos estudos laicos. Bons resultados nos vestibulares confirmavam a proposta da Yeshivá.

Uma visita dos alunos à “sinagoga da Bela Cintra” mostrou uma juventude empolgada, envolvida e orgulhosa de seu judaísmo – ao mesmo tempo, aberta para a cultura e o mundo moderno. Nessa ocasião, o Sr. Joseph, empolgado, pediu para visitarmos mais vezes a sinagoga. Todos sentiam estar construindo uma nova mensagem para a juventude e preparando novas lideranças para o futuro do Yishuv.

Uma reunião com o Sr. Joseph e o Sr. Elie Horn tratou dos próximos passos. Nas análises das plantas, o Sr. Joseph insistia em construir corredores largos. Dizia que era uma obra para muito tempo e que deveria ser construída com amplitude. Foi então que Sr. Elie comentou:
– Mas o Rabino Shammah tem contrato para quatro anos. Depois está pensando em voltar para Israel.

O Sr. Joseph pensou por alguns minutos e então disse:
– Rabino, só vou entrar no projeto se você se comprometer a ficar mais três anos.

Pedi alguns dias para pensar. Quando cheguei em casa, recebi um novo telefonema do Sr. Joseph:
– Rabino, pensei melhor e não vou entrar na construção se você não der a palavra de que ficará mais cinco anos no Brasil.

Liguei então para a Sochnut com a qual tinha o contrato de Shlichut. Expliquei a problemática, e me disseram que seria impossível prolongar a Shlichut por tanto tempo. Mas, entendendo a situação, estariam prontos a me liberar do meu compromisso de voltar para Israel ao fim do contrato, e anular meu contrato em prol da causa da construção da Yeshivá.

Anos depois, quando surgiu uma oportunidade de voltar para Israel, encontrei o Sr. Joseph no Shabat na “sinagoga da Veiga Filho”. Até hoje lembro de suas palavras repreendedoras:
– Ouvi falar que você está pensando em largar a Yeshivá e voltar para Israel.

Sua expressão já dizia tudo. O Sr. Joseph tinha um poder especial de magnetizar todos a sua volta. Sua mensagem estava clara: não se pode largar a responsabilidade comunitária.

Bom, aqui estou após 32 anos… Com o tempo, a responsabilidade financeira da Yeshivá acabou caindo nas minhas costas e não consegui até agora voltar para Israel.

Até hoje o Sr. Elie cita o episódio como um exemplo de visão de futuro do Sr. Joseph.
Que a memória do Sr. Joseph Z”L seja abençoada.

Memórias da Yeshivá

Agosto de 2002:
uma lição para toda a vida

Como aprendi com o Sr. Joseph Safra que limitar o foco é criar uma vida mais abrangente

R. RAPHAEL SHAMMAH

O Sr. Joseph Safra foi o homem que acreditou em nosso sonho e fez com que ele se tornasse realidade. Quando apresentamos a ele o projeto da Yeshivá Or Israel, dissemos que seria formadora de líderes e que iria preparar mão de obra para educar as próximas gerações. Não seria uma escola para todos, mas todos aqueles que a conhecessem sentiriam orgulho de seu judaísmo. Imediatamente ele respondeu: “Estou dentro”.

Mas hoje não quero escrever sobre a Yeshivá, mas sobre uma das muitas lições de vida que aprendi nos anos de convivência próxima ao Sr. José.

Era véspera do pleito que elegeria Lula pela primeira vez, em 2002. A Yeshivá iria festejar seu Bar-Mitzvah com um dinner beneficente, e o Sr. José pediu que muitas pessoas fossem anfitriãs desse evento. Convidamos quase 20 pessoas para uma reunião no Banco Safra, às 15h. Ao chegar, fomos orientados a nos sentar em volta de uma longa mesa.

Sua secretária nos informou que havia aparecido um assunto urgente e pedia desculpas, explicando que o Sr. José chegaria atrasado.

Após as 16h, mais de uma hora depois do horário marcado, o Sr. José chegou. Todos esperavam, certos de que ele não despenderia muito tempo para o assunto, por causa de sua agenda cheia. Mas ele colocou tudo de lado e começou a ouvir com muita atenção a proposta do evento. Discutia ele mesmo os detalhes do evento, por um longo tempo, levantando e descartando hipóteses em relação à data do dinner, analisando os prós e contras de fazer o evento antes ou depois das eleições históricas.

Mesmo eu, o principal interessado no evento, me espantei com o quanto o Sr. José focou nos vários detalhes e nas várias possibilidades, como se fosse a coisa mais importante que existia naquele momento, e ponderou cada ideia até chegarmos à conclusão.

Uma lição para nossos dias, nos quais estamos sempre ligados a mil canais e desligados de muitas situações. Muitas vezes estamos fisicamente num local, mas perambulando por dezenas de lugares em nossos pensamentos ou em nossos celulares.

Viver o momento intensamente, focar no que você está fazendo no presente, entender que justamente na limitação do foco você está criando uma vida abrangente, é uma lição que me acompanha desde então.

Quando falamos com nossos filhos, quando conversamos com nossos alunos, devemos desligar nossas mentes de outros assuntos e dedicar nossos corações e nossos interesses para a alma única que está à nossa frente. Conseguindo nos limitar, poderemos nos aprofundar e com certeza saberemos criar.

O poeta já dizia: “A coisa mais divina deste mundo é viver cada minuto como nunca mais”, fazendo com que cada minuto seja aproveitado de forma que você nunca se arrependa dele.