A Aliá dos Baalê Hatossafot

Porto de Aco

História

A Aliá dos Baalê Hatossafot

Na Idade Média, os Sábios da Torá resolveram deixar a Europa para se estabelecerem em Êrets Yisrael, a fim de apressar a Gueulá. E até hoje colhemos o fruto disso…

RAV ELIAHU SHAMMAH

Boguer e atualmente rabino da Yeshivá

Muito se fala sobre as “Aliot” — migrações de grupos de judeus para Êrets Yisrael — que antecederam a criação do Estado de Israel em 1948. Entre as mais famosas estão a Primeira e a Segunda Aliá (respectivamente de 1882 a 1903 e de 1904 a 1914), oriundas do Leste Europeu e do Iraque, e a Terceira Aliá (de 1918 a 1923), originária da Europa em geral. Essas aliot ganharam notoriedade e têm seus devidos lugares na história. Pouco mais antigas, as aliot dos alunos do Baal Shem Tov e do Gaon de Vilna, ocorridas em meados do século XVIII, também são lembradas por muitos.

Certamente, todas tiveram papel essencial no retorno de Am Yisrael para sua Terra e, portanto, na criação do Estado Judeu. Mesmo dezenas ou centenas de anos antes de o país ser fundado, cada judeu que saiu do lugar onde morava em direção à Terra de Israel plantou ali uma semente que possibilitou, muitos anos depois, mais e mais judeus seguirem esse caminho.

Entretanto, anos antes das aliot citadas acima, ocorreu a chamada Aliá dos Baalê Hatossafot ou Aliá dos Trezentos Rabinos, que teve lugar na Idade Média. Os Tossafot foram um famoso grupo de rabinos que viveram durante centenas de anos no leste da França e na Alemanha. A grande obra deles, “Perushe Hatossafot”, está impressa em cada volume do nosso Talmud e, além de ser um dos seus principais comentários, é uma grande fonte no Código Judaico de Leis.

A partir de 1210, aproximadamente, iniciou-se essa onda de Aliá, vinda principalmente da França. Esses grupos eram compostos por vários tipos de yehudim, dentre eles comerciantes, ricos e pobres. O grande destaque dessa Aliá, porém, era a grande quantidade de sábios de Torá que participaram e lideraram essa migração, todos pertencentes aos Baalê Hatossafot. Rav Shimshon MiKotzi, que escreveu um comentário próprio sobre todo o Shas; Rabi Yonatan MiLonil, grande sábio que nos deixou como legado comentários incríveis sobre alguns tratados da Guemará; Rabi Baruch ben Yitschak, autor de um livro haláchico famoso, chamado “Sêfer HaTeruma”, entre outros gigantes da Torá, são alguns dos que estiveram à frente dessa aliá.

Pouco depois, Rabi Yechiel de Paris, outro grande líder do Povo de Israel, que entre tantos feitos participou do famoso “Debate de Paris”¹, juntou-se aos olim.

¹ O Debate ou Disputa de Paris (em hebraico משפט Paris), também conhecido como Julgamento do Talmud, ocorreu em 1240, na corte do rei Luís IX da França. Nicolas Donin, um Judeu convertido ao cristianismo, traduziu o Talmud e apresentou 35 acusações ao papa da época, Gregório IX, citando uma série de passagens consideradas blasfemas sobre figuras famosas da igreja católica. Quatro rabinos, dentre eles Rabi Yechiel de Paris, defenderam o Talmud contra as acusações de Donin.

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História

“Se hoje em dia temos o mérito de viajar facilmente a Êrets Yisrael, devemos grande parte disso aos integrantes da Aliá dos Baalê Hatossafot.”

Os fatores que inspiraram esse grupo a iniciar essa longa jornada foram o entendimento de que povoar a Terra de Israel era o melhor caminho para aproximar a Gueulá (Redenção), além da situação precária em que os judeus viviam na Europa naquela época.

Ao chegar a Israel, o grupo se dividiu em dois: parte se assentou em Jerusalém, enquanto a outra fixou moradia na cidade litorânea de Aco, localizada ao norte de Israel.

Infelizmente, o grupo de Jerusalém não obteve sucesso em seu objetivo e acabou expulsos — fato diretamente influenciado pelas guerras entre cristãos e muçulmanos pelo domínio da cidade.

Já os que se estabeleceram em Aco tornaram-na um grande centro religioso da Terra de Israel e do Povo Judeu de todo o mundo, especialmente com a fundação da Yeshivá de Aco, que se transformou em um importante centro de discussões haláchicas e para onde questões e dúvidas de comunidades judaicas do mundo inteiro eram enviadas.

O Rashba (1235 – 1310), rabino da cidade de Barcelona e um dos maiores legisladores judaicos da história, escreveu: “O costume de todos os sábios da Terra de Israel e da Babilônia é o de não definir um veredito antes de afirmar: ‘Os Sábios de Aco vão nos orientar'”.

Em 1266, o Ramban (Nachmanides), um dos grandes rabinos do nosso povo, fixou moradia em Aco, sendo nomeado diretor da famosa yeshivá.

Infelizmente, em 1291, essa bela comunidade terminou, quando os mamelucos conquistaram a Terra de Israel e aniquilaram os judeus de Aco, concluindo, dessa forma, as décadas de existência desse centro judaico florescente.

No entanto, muitas pessoas se equivocam ao pensar que a influência dessa importante aliá terminou naquele momento. A verdade é que ela inspirou, e continua a fazê-lo, gerações mais tarde, tanto na formação da conexão psicológica do nosso povo com a Terra de Israel quanto na forma mística, aproximando a Gueulá.

Se hoje em dia temos o mérito de viajar facilmente a Êrets Yisrael, devemos grande parte disso aos integrantes da Aliá dos Baalê Hatossafot.

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