Budismo, Progresso e Judaísmo

Budismo, Progresso e Judaísmo

Como cultivamos nossas raízes, mesmo estando imersos em culturas tão diferentes das nossas: o segredo do Povo Judeu

R. ELIAHU BORTMAN
Boguer da Yeshivá, rabino na kehila de Raanana.

ORIENTE – PASSADO

Quando ainda cursava a faculdade no Brasil, lembro-me de um colega de classe que costumava meditar segundo o método budista. Quando questionado sobre a meta da meditação, ele respondeu que o objetivo era sentir-se parte do mundo ao redor, percebendo-se como uma peça do ecossistema que o envolve. O sucesso da meditação, segundo ele, seria alcançado ao sentir que o corpo não é algo que existe por si só, mas sim uma parte de um todo.
Essas palavras parecem ter um fundo judaico, uma compreensão de que não temos uma existência paralela ao universo, mas sim intrínseca a ele, o que nos leva a sentir responsabilidade pela criação de HaKadosh Baruch Hu. No entanto, ao nos aprofundarmos na visão budista da realidade e na verdadeira meta por trás desse tipo de meditação, chegamos a algo completamente diferente.
Tornar-se parte da “vista” do mundo ao redor não tem como intenção gerar um senso de responsabilidade, mas sim anular a existência humana, tornando-a apenas mais uma das criaturas que preenchem o mundo, sem a responsabilidade de criar e se desenvolver. A base desse pensamento é a ideia de que o progresso é irrelevante; o objetivo da vida é apenas vivê-la sem estresse. A palavra que define esse estado mental, no qual a pessoa se liberta de qualquer preocupação, sofrimento ou ansiedade, é conhecida no budismo como Nirvana, traduzida como “apagado”, “extinto”, “nulo”. Esse é o estado procurado pela meditação budista, no qual o ser humano simplesmente deixa de “existir”.
Esse desprezo pelo progresso e a falta de sentimento de responsabilidade em relação ao futuro fazem com que as filosofias orientais se foquem, naturalmente, no passado e nas raízes de suas culturas.

OCIDENTE – FUTURO

Progressismo. Possivelmente, a palavra que melhor define a cultura ocidental em todas as suas ramificações. Progresso científico, econômico, tecnológico — Ordem e Progresso.
Ao longo de sua história, o Ocidente buscou melhorar as condições de vida do ser humano. Cada nova cultura que surgia — Grécia (dividida entre Atenas, no quesito cultural e econômico, e Esparta, no quesito militar) e Roma — buscava tornar o mundo mais agradável para os homens. Não somente nos prazeres se buscou a inovação, mas também em expedições marítimas, escolas de filosofia, mudanças de regime governamental e, posteriormente, na tentativa de chegar à Lua e conhecer tudo que existe no universo. Essas sempre foram partes da ambição ocidental.
Palavras como primitivo, velho e ultrapassado compõem um pensamento que vê o passado como algo do qual devemos nos afastar. Diferentemente da cultura oriental, que valoriza seus ancestrais, costumes e tradições, a filosofia de vida ocidental geralmente tende a buscar a modernização, a criação de novas condições ou a reformulação das antigas, para serem compatíveis com a vida atual.

INTERAÇÃO ENTRE AS DUAS FILOSOFIAS

Hoje, vivemos em um mundo globalizado e vemos uma influência mútua entre o Ocidente e o Oriente. A medicina oriental, a meditação e as filosofias de vida do leste tornaram-se parte do Ocidente. Justamente o retorno à natureza e à simplicidade atrai o homem ocidental “evoluído”, que, muitas vezes, devido à corrida pelo progresso, perdeu suas origens. Após tantos anos de desenvolvimento e busca pela modernidade, o cansaço começa a dar sinais na cultura ocidental. A ansiedade, a pressão e o estresse tornaram a população doente, e nada mais tranquilizante do que o pensamento de que podemos parar um pouco, relaxar e apenas meditar.
Outro fator que abriu as portas do Ocidente para a cultura oriental foram as duas guerras mundiais. Tendo o progresso como catalisador para mudanças culturais, econômicas e científicas, a esperança era de que o futuro fosse promissor e que a paz mundial seria alcançada, pois a barbaridade da natureza humana, tida como essencialmente primitiva, deveria ser extinta, sendo substituída por uma sociedade pacífica.
As duas guerras levaram a uma descrença no positivismo do suposto progresso, e uma das reações causadas pela decepção com a cultura progressista foi o movimento hippie. A substituição do lema de avanço e desenvolvimento por um simples “paz e amor”, para um pacifismo apático e desinteressado, foi a resposta instintiva à frustração causada pelas guerras mundiais.

O JUDAÍSMO

E onde entra o Judaísmo nessa questão? Como o pensamento judaico se relaciona com o progresso e a valorização do passado?
Por um lado, sabemos que o Judaísmo prega o conceito de Tikun Olam, de que o ser humano deve “consertar” o mundo, o que nos leva a procurar interferir no planeta. Por outro lado, não há como negar que a tradição e a reverência às gerações anteriores estão no centro da vida judaica, seja no respeito aos pais e àqueles que transmitem a Torá. Qualquer tipo de reforma na Torá em função da modernidade é errada — pelo contrário, a Torá é a Luz capaz de iluminar a vida em todas as gerações, com seus princípios e ideais eternos.
Sendo assim, precisamos colocar o Judaísmo em um equilíbrio entre as duas linhas. Devemos manter nossas raízes e tradições, reconhecendo a Divindade delas, e encontrar o modo de desenvolver o mundo, não somente sem ignorá-las, mas por meio delas. O pensamento judaico deve nos levar a criar um mundo melhor, pautado em seus princípios.

O TEMPO SEGUNDO O JUDAÍSMO

É interessante notar que tal divergência filosófica gera também uma noção diferente do próprio sentido do tempo. Podemos olhar para o tempo de três formas: circular, contínuo ou espiral. Podemos imaginar o tempo como circular, sempre voltando para o mesmo ponto. Os egípcios antigos acreditavam que o tempo era circular e, portanto, os faraós eram embalsamados e enterrados com seus pertences, para que, quando o momento chegasse, eles renascessem em seus mesmos corpos, para viver mais uma vez sobre a face da Terra. A visão ocidental tende a ver o tempo como contínuo, uma linha reta seguindo sempre em frente, se distanciando do passado.
Já o Judaísmo observa o tempo de forma única: em espiral. De certa forma, estamos sempre revivendo os mesmos momentos: o Shabat, em lembrança ao Shabat da Criação; Pêssach, em recordação à saída do Egito; Shavuot, em memória ao recebimento da Torá. Sabemos que esses momentos não voltarão a acontecer; eles se encontram no passado, mas a cada semana ou ano revivemos os ideais trazidos ao mundo nesses momentos.
O calendário judaico não é nostálgico; não são apenas lembranças e memórias de outros tempos. Em Pêssach, temos a força de reviver o conceito da liberdade, da criação do Povo Judeu; em Shavuot, nos conectamos novamente com o recebimento da Torá e seus preceitos, podendo sentir novamente a Revelação Divina durante os Dez Mandamentos; em Rosh Hashaná, cada um de nós é recriado, podendo limpar o passado e seguir em frente para um futuro brilhante. O tempo no Judaísmo é espiral, girando mas seguindo em frente, circular e contínuo ao mesmo tempo.
Rav Eli Horovitz zt”l, morto em um atentado, certa vez contou que, quando jovem, morou em um kibutz e lá, ao lado de seu quarto, decidiu plantar uma pequena horta, com legumes, flores e plantas diversas. Com muita dedicação, regou e cuidou de suas plantas. Apesar de todos os seus esforços, certa manhã ele acordou e viu que todo seu trabalho havia sido perdido. As flores haviam murchado, as plantas estavam caindo, e seu esforço parecia ter sido em vão. Triste, mas curioso, ele tentou descobrir o que causara a morte de sua horta. Depois de muita pesquisa, encontrou um pequeno grupo de gafanhotos espalhados pela horta. Supostamente, esses gafanhotos não poderiam ser a causa da destruição completa das plantas, pois gafanhotos são conhecidos por comer plantações, mas não por matá-las. Ao continuar verificando o que os gafanhotos estavam fazendo, ele percebeu que aquela espécie não comia as folhas de modo normal, mas ficava muito próxima à terra, ingerindo o caule das flores e plantas, justamente na base, onde se conectavam com a terra e suas raízes.
Muitos anos depois, quando já havia voltado em teshuvá e encontrado seu caminho no Judaísmo, ele tirou uma lição essencial dessa história. Para que o Povo Judeu possa florescer, deve tomar muito cuidado para não cortar a conexão com suas raízes! Desconectar-se do passado, mesmo que apenas pela busca de um futuro mais promissor, é colocar um ponto final no Judaísmo.