Os Degraus Secretos da Reza de Shacharit

Estrutura da Tefilat Shacharit: A Elevação pelos Mundos da Cabalá

Or Yossef Yeshiva College

Mundo das ações
Em seguida, recitamos os Korbanot (sacrifícios), relembrando os atos realizados no Templo. Essa etapa alude ao nível das ações práticas das mitsvot, que no mundo da Cabalá é definido como “Olam HaAssiyá” (Em alguns sidurim consta essa classificação).

Mundo das emoções
Ao chegar nos Pessukê Dezimrá (versículos de louvor), a oração já está em um nível mais elevado, entoando a grandeza de Hashem e Sua bondade na Criação. Nesse momento, aquele que reza já saiu do mundo da prática, entrando no das emoções, expressando sentimentos. Na Cabalá, esse estágio é paralelo ao “Olam HaYetsirá”.

Mundo intelectual
No Shemá e em suas Berachot (bênçãos), a alma contempla e conhece D’us por diferentes caminhos: na primeira bênção, por meio de Seus atos, Sua criação; na segunda, por Sua Sabedoria revelada pela Torá, e, na terceira, por meio da intervenção de D’us na história dos povos e na redenção do Povo de Israel. No próprio Shemá, aceitamos sobre nós a soberania do Todo-Poderoso. O mundo intelectual alcançado é definido na Cabalá como “Olam HaBeriya”.

Perante D’us – Tefilat HaAmidá
Somente após percorrer esses degraus espirituais podemos nos dirigir diretamente a D’us, apresentando também nossas necessidades. Nesse ponto da reza, conhecido como Amidá, estamos diante de D’us, no ápice da experiência espiritual. Na verdade, isso implica uma anulação perante Hashem (Bitul), e nossos pedidos devem ter a intenção de nos ajudar a revelar Sua Luz através de nossas vidas. Esse estado é representado na Cabalá como “Olam HaAtsilut”.
Logo depois recitamos o Vidui (confissão), excluindo forças negativas que, eventualmente, possam se despertar e crescer junto com nossa elevação.

Descida de volta à nossa realidade
Depois de atingir o auge, chegou a hora de trazer as energias alcançadas de volta ao nosso dia a dia.
De nosso estado de Bitul, anulação, e conexão máxima com D’us, descemos ao mundo do intelecto, trazendo novas revelações. Reconhecemos a Presença Divina dentro do Povo de Israel, no seu estudo da Torá, nas mitsvot e mesmo no seu cotidiano, como consta na reza de Uvá leTsion: “…E Você, o Santo, habita nos louvores de Israel…”.
Tendo returned ao nível intelectual, descemos novamente ao nível emocional, imbuídos de sentimentos sublimes trazidos dos mundos superiores, recitando o Shir Shel Yom (Cântico do Dia), expressando um louvor diário ao Criador.
Antes do encerramento, retornamos à dimensão prática, recitando o trecho do Ketoret (o incenso do Templo). Juntando em si vários aromas, o Ketoret simboliza a junção de todas as forças aliadas na Avodat Hashem (serviço de D’us)!
Por fim, concluímos agradecendo novamente ao Todo-Poderoso na reza de Alênu Leshabêach, por nos ter escolhido como Seu povo, afirmando que Ele é o D’us único, e esperando a revelation dos ideais Divinos em nosso mundo, de forma completa!
Na passagem de um estágio de nossa reza ao outro, tanto na elevação quanto na volta ao nosso cotidiano, recitamos o Kadish, que podemos considerar como se estivéssemos “mudando de marcha” (com exceção da passagem de Beriyá para Atsilut, para entrar na Amidá, logo depois da Berachá de Gaal Israel).
Essa estrutura complexa revela um dos segredos da nossa Tefilat Shacharit!

3 Berachot do “Keriat Shemá”: 3 Caminhos para se chegar à Emuná (fé); 3 Dimensões da Revelação de Hashem

R. Raphael Shammah

Nossos Sábios disseram na Mishná Berachot (Pêrek 1:4): “De manhã (na leitura do Keriat Shemá), deve-se abençoar duas Berachot antes do Shemá, e uma Berachá após o Shemá”. Essas três Berachot são, na verdade, três caminhos pelos quais podemos conhecer D’us. Por meio delas, conseguimos chegar a declarar nossa fé completa recitando o Shema Yisrael!

1º – Yotser Hameorot (יוצר המאורות) – “D’US QUE SE REVELA NA CRIAÇÃO”
1ª Berachá: Yotsêr Hameorot – Por meio da Contemplação da Criação
Nessa Berachá, contemplamos as maravilhas que D’us criou em nosso mundo e os segredos que estão por trás delas. Afinal, por meio de cada grama que cresce, há um anjo (força espiritual), que lhe diz: “Cresça!” (Midrash Rabá 10:6).
A própria complexidade e perfeição da natureza testemunham a grandeza do Criador!
“Como são inúmeras Suas criaturas, D’us” (Tehilim 104:24)
“Como são grandes Seus feitos, D’us” (Tehilim 92,6)
Milhões de galáxias, com seus bilhões de estrelas; os sistemas do corpo humano, que funcionam com grande sabedoria e perfeição, a beleza das flores, o sorriso da criança, todos esses elementos entoam um louvor mudo para Aquele que os criou.
Maimonides cita que a contemplação da criação e das belezas da natureza é um dos caminhos para amar o Criador (Rambam, Yessodê Hatorá Pêrek 2:2): “No momento que a pessoa faz uma reflexão sobre os feitos maravilhosos e grandiosos da criação de Hashem, percebe em tudo Sua sabedoria infinita e incalculável e, imediatamente, O ama, louva, engrandece e deseja fortemente conhecer a grandeza do Criador”. Nessa Berachá conhecemos D’us por meio da beleza e perfeição de Seus atos.

2º – Habocher BeAmô Yisrael BeAhavá (הבוחר בעמו ישראל באהבה) – “D’US QUE ESCOLHEU SEU POVO, YISRAEL, COM AMOR”
2ª Berachá: Habochêr Beamô Yisrael Beahavá – Aquele que escolheu o Povo Judeu com amor
Nessa Berachá, reconhecemos o grande amor de D’us para com Am Yisrael, ao entregar-lhes Sua Torá.
A Torá foi o plano do mundo e nela estão todos os segredos da Criação.
Viver segundo a Torá é seguir o “manual de instruções do Fabricante de nosso mundo”, tendo, portanto, uma existência com significado e propósito.
A Torá revela a intimidade e o amor de Hashem para com Seu Povo escolhido. Em seu livro das mitsvot (Sêfer Hamitsvot, mitsvá positiva 3), Maimônides cita esse caminho como meio para se chegar ao amor de D’us: “Veahavta: Ame D’us… E qual o caminho para amar D’us? “Veahiú hadevarim”… Com as palavras da Torá entrando em seu coração, você conhecerá Aquele que criou o mundo com Suas palavras”.
Trata-se de um grau mais elevado de conexão com D’us, se comparado ao da contemplação da natureza. Enquanto na natureza conhecemos D’us por meio de “Seus atos”, na Torá conhecemos a “Sabedoria Divina” traduzida em nossos conceitos.

3º – Gaal Yisrael (גאל ישראל) – “D’US QUE SE REVELA ATRAVÉS DA HISTÓRIA”
3ª Berachá: Gaal Yisrael – Aquele que salvou o Povo de Israel através da história
Grandes historiadores reconhecem a singularidade do Povo Judeu não só por sua grande influência no pensamento e nas religiões da humanidade, mas pela sua história única.
Trata-se de um Povo que se deparou com grandes potências, que muitas vezes tentaram aniquilá-lo, e continua dinâmico e presente, enquanto seus opressores desapareceram há tempos do pódio mundial.
Um Povo único que, após ser exilado de sua terra e disperso pelas nações, não esqueceu sua própria pátria, nem perdeu sua essência, e está voltando ao seu território para construir seu futuro ideal.
Quem estuda a história do Povo Judeu reconhecerá a Mão Divina cuidando de Am Yisrael, que é como uma ovelha entre 70 lobos, sobrevivendo graças ‘apenas’ a Seu pastor!
Essa Berachá louva D’us por nos ter salvado de todos os percalços da história e nos dirigido pelas encruzilhadas dos acontecimentos, a fim de que continuemos fortes e preenchendo nossa missão de divulgar Seu Nome neste mundo. Estudar a história de Am Yisrael é conhecer a Mão de D’us dirigindo o curso da humanidade e Se revelando na saga dos povos.

Porque a Berachá de Gaal Yisrael vem só depois do Shemá?
Contemplar a natureza e se aprofundar na Torá, nos caminhos de Hashem, nos leva diretamente ao Criador; mas para ver D’us na história são necessários ‘óculos especiais’.
Após termos fé no Criador e reconhecermos que Ele dirige nossa vida e nosso mundo, aí sim, conseguiremos unir os pontos da história e ver, com clareza, a Mão de D’us ‘mexendo os pauzinhos’.
Essa é a lição da Meguilat Esther! Muitas vezes, somente após anos, se não décadas, é possível entender os processos que D’us criou em nosso mundo.
Por isso, só depois de recebermos sobre nós a fé no Criador, recitando o Keriat Shemá, é possível entendermos o plano de D’us e louvá-Lo por Seu cuidado com nosso Povo ao longo da história. Sendo assim, é natural que a Berachá de Gaal Yisrael venha apenas após o Shemá, no qual aceitamos o Reinado de Hashem!

Conexão Invisível: A Tefilá que Protegeu um Soldado

Aron Levy & Rafael Presman (9º ano do Ensino Fundamental)

Fonte: Livro “Anjos Vestidos de Laranja” (Ed. Makom, 2024)

No mundo agitado que vivemos, é fácil esquecer o poder real da tefilá. A história a seguir mostra como uma simples oração, feita com cavaná e constância, pode ter efeitos reais.
Shlomo Landau, renomado educador e líder comunitário em New Jersey – diretor da Torah Links e professor na Rae Kushner Yeshivá High School -, é conhecido por seus divrê Torá e histórias inspiradoras, além de dar shiurim curtos em plataformas como Vayimaen e VDT (Vídeos de Toire). Ele é bastante ativo no trabalho de kiruv, conectando pessoas à tefilá, ao estudo da Torá e às mitsvot. A história que ele compartilha relata um encontro aparentemente casual entre um bachur e um soldado ferido, revelando como a tefilá conecta pessoas, protege vidas mesmo que não possamos ver seus efeitos de imediato e mostra o quanto Am Yisrael é unido.
Certa vez, um jovem que estuda em uma yeshivá foi visitar um amigo no “Hospital Barzilai”, em Ashkelon. Na cama ao lado daquele rapaz, estava um soldado ferido, acompanhado de um colega. O jovem estava conversando com seu amigo doente, quando o colega do soldado fez uma pergunta:
“Por que você não está no exército?”
“Não estou no exército”, respondeu o bachur, “mas estou fazendo muito por ele.”
“Sério?! O que você está fazendo pelo exército?”, o amigo do soldado mostrou-se cético.
“Adotei um soldado.”
“Você adotou um soldado, e o que isso quer dizer?”, o outro insistiu.
“Quando faço tefilá, estudo Torá, faço isso em nome do meu soldado, mantendo-o em mente para que ele seja protegido.”
O amigo começou a rir: “Então você está fazendo tudo por um soldado, certo?”
O bachur assentiu com a cabeça. “Você provavelmente está inventando isso para nos fazer sentir bem ou para sentir-se bem. Diga-me uma coisa: qual o nome do soldado que você adotou?”
O bachur respondeu sem hesitar: “Itay Yehuda ben Keren”.
Assim que o bachur pronunciou o nome, o soldado ferido, deitado na cama, ficou pálido. “Esse é meu nome”, disse. “Eu sou Itay Yehuda ben Keren!”
Por um segundo todos na sala ficaram espantados, quando perceberam que o bachur visitante estava rezando pelo soldado, colega de quarto de seu amigo.
Mas o amigo do soldado não se deu por satisfeito: “Se você está rezando por Itay, como é possível que ele tenha sido ferido?” “Os caminhos de Hashem são complicados”, respondeu o bachur. “Mas seu colega está vivo, ele sobreviveu!”
Quando a conversa prosseguiu, Itay disse ao bachur que havia sido ferido na última terça-feira.
“A que horas?”, perguntou o estudante da yeshivá.
“Às 16h40”, devolveu o soldado ferido.
Agora era a vez de o bachur tornar-se pálido.
“Quero lhe contar uma coisa”, disse ele. “Eu me esforço muito para chegar a tempo ao sêder (turno de estudo). No dia que você se feriu, só consegui chegar ao Bêt Midrash às 17h… Às 16h40, você estava sem a proteção habitual que normalmente tinha.”
Quando a bachur partiu, ele e o soldado já haviam se tornado melhores amigos, e ele sabia que os dois estariam, para sempre, profundamente conectados.
E todas as quatro pessoas ali naquele quarto de hospital, naquele dia, entenderam que a tefilá e as mitsvot protegem Kelal Yisrael de maneiras que nem conseguimos imaginar…

A Estrutura do Shemonê Esrê: A ordem da amidá e o significado de cada berachá que dizemos nela

Avraham Katz (3º ano do Ensino Médio)

Abertura (da 1ª à 3ª Berachá): Como um funcionário que entra na sala do patrão ou um súdito na sala do rei, as três primeiras berachot são de apresentação, cumprimentos e louvor. Primeiramente, temos de reconhecer Quem é nosso D’us, e só então podemos iniciar os pedidos.
– Avot (Maguen Avraham) Define nossa conexão com D’us, Hashem de nossos Patriarcas, que se importa com as pessoas (1ª Berachá)!
– Guevurot (Mechaiê Hametim) Reconhecemos a força de D’us, que Se revela na criação da vida e suas maravilhas (2ª Berachá)!
– Kedushá (HaEl HaKadosh) Expressa a Santidade de Hashem, reconhecendo que Ele está muito acima dos conceitos humanos (3ª Berachá).

Necessidades pessoais (da 4ª à 9ª Berachá):
Aqui fazemos três pedidos espirituais: Sabedoria (4ª Berachá), Teshuvá – retorno a D’us (5ª Berachá) e Selichá – Pedido de desculpas (6ª Berachá), e três pedidos materiais: Salvação dos problemas (7ª Berachá), Cura (8ª Berachá) e Parnassá – sustento (9ª Berachá).
Por que começamos pelos pedidos espirituais?
a) Devemos dar mais importância ao espiritual em nossas vidas;
b) Ao nos elevarmos espiritualmente, mereceremos, automaticamente, também o material.

Necessidades da Nação (da 10ª à 15ª Berachá):
Enquanto em relação às necessidades pessoais começamos pelo espiritual, e concluímos com o material, no que se refere ao Povo, a ordem é inversa: primeiramente pedimos sobre as bases da Nação, e depois a construção, sobre essas bases, dos degraus mais elevados.
A explicação para isso é que a redenção do Povo Judeu acontece de forma crescente, iniciando pela parte física e material, passando pelos níveis espirituais mais elevados e culminando com a revelação Divina (como consta no Talmud Yerushalmi Berachot 4b).
Nota-se também que a ordem de todas as bênçãos dessa parte segue esse critério: primeiramente, o Povo Judeu volta e se agrupa em sua terra – essa é a base para desenvolver o potencial da Nação (10ª Berachá); em seguida, D’us colocará juízes justos sobre nós, a fim de que nossa realidade seja regida pelos ideais Divinos (11ª Berachá), e, então, os juízes justos afastarão os perversos e a maldade, forças contrárias à essência de nossa Nação (12ª Berachá).
Após preparar a base de nossa Nação, inicia-se a construção de nosso ideal nacional, com a elevação da honra dos tsadikim. Afinal, eles são o exemplo e objetivo que toda a Nação pode alcançar, e por meio deles a berachá de Hashem nos alcança (13ª Berachá); depois, pedimos pela reconstrução de Jerusalém e do Bêt Hamicdash, o lugar onde a Shechiná se revelará (14ª Berachá), e, por fim, teremos a volta do Reinado da Casa de David, ou seja, a chegada de Mashiach, com a revelação da Shechiná e a Gueulá completa (15ª Berachá)!

Conclusão dos pedidos (16ª Berachá):
O tema das necessidades finaliza com uma bênção que engloba todos os pedidos: que D’us escute todas nossas rezas! Essa berachá, por si só, é o ideal de Am Yisrael – o de estar conectado com Hashem em suas rezas!

Encerramento (da 17ª à 19ª Berachá):
Antes de nos despedirmos de D’us, temos três bênçãos com assuntos que competem à lógica da nossa reza, e servem de conclusão:
– Avodá (Serviço do Templo) – Toda a amidá só foi decretada para substituir os sacrifícios que não temos mais. Portanto, no fechamento da reza, pedimos a D’us que possamos voltar a servi-Lo da forma original e ideal (17ª Berachá).
– Modim (Agradecimento) – Depois de tantos pedidos, nada mais lógico do que agradecer pelas tantas coisas boas que já temos (18ª Berachá)!
– Shalom (Paz) – D’us só dá bênçãos quando há paz entre nós, como diz a Mishná (Uktsin 3:12): “D’us não encontrou um utensílio melhor para reter as bênçãos para Israel, a não ser a paz”. Portanto, ao fim da tefilá pedimos que haja paz entre nós – caso contrário, nenhum dos outros pedidos poderá se concretizar. Essa paz é encontrada justamente quando a Luz Divina se revela entre nós (19ª Berachá)!

Afinal, são 18 ou 19 bênçãos? Shemonê Esrê, a Amidá

R. Chaim Vital Passy

As berachot de Shemonê Esrê remontam aos tempos de Avraham, Yitschak e Yaacov Avinu, embora sua forma final, como a conhecemos nos sidurim, seja de uma época relativamente mais próxima, a de Ezra HaSofêr e Anshê Knesset HaGuedolá (os Homens da Grande Assembleia), há mais de 2.400 anos.
Quando os judeus foram expulsos de sua terra, indo para o exílio na Babilônia, muitos chegaram a esquecer o Lashon HaKodesh. Por essa razão, os líderes e profetas daquele tempo organizaram rezas seguindo uma ordem determinada e em hebraico. Assim, todo judeu, em todos os tempos e lugares, recitaria as mesmas rezas sagradas em um único idioma, o Lashon HaKodesh, que emana uma energia especial e contém em si segredos e conexões que chegam aos portões dos Céus, além de proporcionar um sentimento de união e força.

Origem da décima nona berachá:
A Galut Bavel durou 70 anos; depois, o Segundo Bêt HaMicdash foi reconstruído por Ezra e Nechemyá, permanecendo por 420 anos. Após a destruição do Segundo Bet HaMikdash, pelos romanos, o Shemonê Esrê foi parcialmente esquecido. Foi então que o líder do Povo na época, Raban Gamliel, de Yavne, com a ajuda de Rabi Shimon Hapakuli, estruturou a forma da Amidá como a conhecemos hoje.
Naquele tempo, o Povo sofria com os males causados pelos perversos, que, por dinheiro ou poder, caluniavam o Povo Judeu. Dessa forma, uma bênção foi acrescentada, o que elevou para dezenove o total de berachot, mas o nome Shemonê Esrê (que significa dezoito) permaneceu. Essa prece adicional é para que os caluniadores do Povo Judeu não tenham êxito e que os heréticos e inimigos fracassem em suas tentativas de nos fazer o mal. Ela conclui com: “… que esmaga os inimigos e subjuga os arrogantes”.
A origem histórica dessa prece ocorreu quando Hashem castigou os egípcios, fechando o Mar Vermelho sobre eles. Os anjos testemunharam todo o sofrimento que os judeus passaram nas mãos dos egípcios e viram D’us aplicar a justiça naquele momento. Então os anjos exclamaram: “Bendito é Você, Eterno, que esmaga os inimigos e subjuga os arrogantes” (shover oivim umachnia zedim/ minim).

Paralelo aos nomes de Hashem do Keriat Shemá:
O Talmud Berachot (28b) traz ainda uma explicação de que as dezoito bênçãos de Shemonê Esrê equivalem às dezoito vezes em que o Nome de D’us é mencionado no Shemá. Nessa tefilá, afirmamos e declaramos a Unidade de Hashem, nossa fé Nele e nosso comprometimento com Suas mitsvot. O Talmud explica que, na verdade, ao todo são dezenove bênçãos que compõem a Amidá, pois, além de encontrar dezoito vezes a menção de D’us no Shemá, há uma décima nona menção ao Seu Nome – no primeiro passuk, onde lemos: “Ouça, Israel, o Eterno é o nosso D’us, o Eterno é Um”. A palavra “Um” é tida como uma referência a Ele, totalizando, assim, dezenove vezes as menções do Nome de Hashem no Shemá. Esse décimo nono Nome alude àquelas pessoas que se opuseram aos judeus e tentam destruir o conceito verdadeiro de D’us único no mundo; é em relação a elas que pedimos a Hashem, nessa prece adicional, que sejam destruídas.

O coração puro de Shemuel Hakatan:
Berachot 28b: “Ensinaram nossos Sábios: Shimon Hapakuli organizou as dezoito bênçãos (da Amidá) diante de Raban Gamliel, na ordem, em Yavne. Disse Raban Gamliel aos sábios: ‘Acaso há alguém que saiba formular a bênção contra os hereges (Birkat HaMinim)?’ Levantou-se Shemuel Hakatan e a formulou”. Sendo essa a décima nona berachá de Shemonê Esrê.
Qual é a grande dificuldade de formular essa berachá, a ponto de nenhum outro Sábio ter sido capaz de criá-la? E por que justo Shemuel HaKatan conseguiu fazê-la?
Rav Kook (Ein Haya Berachot 28b) explica que em relação ao restante das bênçãos, cujo conteúdo é composto somente por assuntos ligados ao amor e otimismo, qualquer Sábio que atingiu um nível elevado nessas virtudes é capaz de formular seu conteúdo. Já Birkat HaMinim, que pede pelo extermínio dos hereges e perversos, precisa vir de um coração totalmente puro, que não possua nenhum ódio, de forma que a única intenção no pedido pelo extermínio dos hereges seja pela vontade de revelar a Luz de D’us. Se fosse alguém com algum ponto de ódio natural, mesmo se inicialmente o ódio e a rejeição pelos perversos fossem totalmente em razão de seus maus atos, essa ira poderia acabar se desviando e tornando-se, futuramente, um ódio natural. Portanto, Shemuel HaKatan foi justamente o escolhido, pois era conhecido por sempre dizer: “Não se alegre pela queda de seu inimigo” (Avot 4:19), o que prova que ele não tinha nenhum ponto de ódio negativo, e sua única intenção na redação da berachá era apenas fazer o que é necessário em nome de Hashem!

Primeira Berachá: o cartão de visita de Hacadosh Baruch Hú

R. Raphael Shammah

A importância da primeira Berachá | Hakadosh Baruch Hu
O Shulchan Aruch traz a lei de que se a pessoa não se concentrou no entendimento das palavras da primeira Berachá da Amidá, deve voltar e rezar novamente (na prática, há vários detalhes de como se comportar em nossos dias, já que nossa capacidade de concentração é diminuta – veja mais em Mishná Berurá Orach Chayim cap. 101,1)
Devemos entender por que essa Berachá é mais importante que todas as outras. Afinal, em todas as Berachot estamos falando com Hakadosh Baruch Hu!!
Podemos dizer que essa Berachá é o início da conexão da linha direta do Yehudi com Hakadosh Baruch Hu. Sendo assim, se a ligação não foi feita com o endereço certo, não há como transmitir o restante dos dados.
Nessa Berachá está o cartão de visita de Hashem e, antes de louvar, pedir e agradecer, você deve entender com Quem está falando.

Explicação da Berachá:
– Baruch Atá Hashem (בָּרוּךְ אַתָּה ה’)
É assim que iniciamos todas as bênçãos. Estamos nos dirigindo diretamente a Hashem, face a face! Por trás de “abençoar”, que pode ser entendido como um louvor, está a explicação cabalística de que “Baruch” também significa a fonte das bênçãos. Ao abençoá-Lo, estamos, ao mesmo tempo, atraindo boas influências de Hashem, a fonte de todas as Berachot, Baruch!

– Eloheinu Velohei Avoteinu (אֱלוֹקִינוּ וֵאלוֹקי אֲבוֹתֵינוu)
A ousadia de se dirigir ao Rei dos reis, Criador de milhões de Galáxias e bilhões de seres vivos, Senhor de todos os mundos, vem da conexão que nossos antepassados estabeleceram com Ele e com a Revelação de Hashem para eles. D’us ensinou a Avraham, a Yitschak e a Yaacov que Ele queria ouvir suas vozes, que Ele Se importava com seus receios e que os convidava para uma parceria que duraria para sempre. Nosso D’us e D’us de nossos antepassados.

– Elohei Avraham, Elohei Yitschak Velohei Yaacov (אֱלוֹקי אַבְרָהָם אֱלוקi יצחק ואלוקי יעקב)
Podemos perguntar por que o texto repete “D’us de Avraham, D’us de Yitschak e D’us de Yaacov”? Por que não resumir dizendo “D’us de Avraham, de Yitschak e de Yaacov”?
Daqui vem um ensinamento de que há vários caminhos para o homem chegar a D’us, dependendo de sua alma e de seu caráter. Avraham seguia a linha de Chêssed (Bondade) e serviu a D’us, principalmente, por meio do Amor e da Bondade para com Suas criaturas. Yitschak adotou Guevurá (Severidade) e serviu a D’us, principalmente, pelo autossacrifício e temor a D’us. Já Yaacov uniu as virtudes de seus antepassados e concretizou a linha de Tiféret (Esplendor), no sentido de uma união completa da Bondade com a Disciplina, e conseguiu traçar o caminho do equilíbrio, da verdade e da Torá, que nos ensina a maneira exata de como agir e revelar Hashem em nossas vidas.
Os caminhos são válidos, desde que estejam dentro dos limites da halachá, que é a escada que D’us nos deu para subir aos Céus, e de acordo com os alicerces de nossa fé, definidos pelo Rambam (Maimonides), nos seus Treze Princípios da Fé Judaica.

– HaEl HaGadol HaGuibor VeHaNorá (הא-ל הגדול הגבור והנורא)
Nossos Sábios dizem que se formos mencionar todos os adjetivos de Hashem, não conseguiremos terminar, pois D’us é infinito e Todo-Poderoso. Por isso nos limitamos a citar os atributos que Moshê lembrou na Torá, cientes de que eles não são suficientes para expressar toda Sua grandeza, mas servem apenas como indicativos dela a seres humanos e limitados.
O Grande – alude à Bondade, que quer se expandir sem limites;
O Poderoso – remete à Justiça, que limita e canaliza essa expansão;
O que Se faz temer – indica a perfeição e a capacidade infinita de D’us.

– E-l Elyon – Gomel Chassadim Tovim, Konê Hacol Vezocher Chasdei Avot
Nesse trecho citamos a grandeza de Hashem, que por um lado é o “D’us Supremo”, mas, ao mesmo tempo, “Concede bondades” às Suas criaturas. Simultaneamente, Ele é o “Criador de tudo” e “Lembra das bondades feitas pelos nossos antepassados”. Hashem é transcendental, está acima de qualquer noção do entendimento humano, e, ainda assim, Ele Se importa com cada um e quer o bem de Suas criaturas.

– Umevi Goel Livnei Veneihem
O Judaísmo trouxe ao mundo muitas novidades. Além da fé em um D’us único, ensinou à humanidade a ideia de que o universe tem uma direção e caminha rumo a uma época áurea. Segundo o historiador britânico Paul Johnson (1928-2023), essa é a maior dádiva que os judeus trouxeram aos povos da Terra. Antigamente, a humanidade vivia num ciclo aleatório da história, como se tudo se repetisse dia a dia, ano a ano, sem rumo e sem esperança por um mundo melhor. Aqui salientamos que D’us trará o Salvador para os descendentes dos Avot, ensinando que o mundo caminha para uma época de perfeição e plenitude!

– Le’ma’an Shemó BeAhavá
Toda a Criação e toda a revelação de D’us ao homem são para engrandecer Seu Nome e, assim, revelar no futuro Sua grande Luz, o que trará o bem e um grande prazer às pessoas no Olam Habá (Mundo Vindouro), ou seja, tudo é pela honra de Seu nome, e pelo amor que D’us tem para com Suas criaturas.

– Melech Ozer U’moshia U’maguen
Novamente lembramos que, embora D’us seja o Rei do Universo, Ele Se importa conosco e intervém em nossas vidas. “Rei que ajuda, salva e protege”. Ajuda quando estamos em nosso projeto de vida; salva quando nos encontramos em apuros ou mesmo com problemas, e protege ao evitar que os problemas e inimigos nos atinjam, muitas vezes sem que nem ao menos saibamos disso.

– Baruch Atá Hashem, Maguen Avraham
Terminamos a Berachá lembrando D’us como o “Escudo de Avraham”. Por que, na finalização da Berachá, citamos somente Avraham, e não os outros antepassados?
a) Avraham foi o primeiro a iniciar o projeto de Am Yisrael. Ele é a primeira conexão permanente de D’us com o Povo escolhido. Estabelecendo nossa ligação com Hashem, lembramos do início dessa fé e da primeira revelação de Hashem para Avraham Avínu.
b) Como já lembramos, cada um dos Avot tinha um caminho especial e principal na sua Avodat Hashem. Avraham – Guemilut Chassadim (bondade para com os necessitados); Yitschak – Avodá (serviço Divino), que é a Tefilá, e Yaacov – Torá. Embora estudemos que o mundo se sustenta sobre três pilares: sobre a Torá, sobre a Avodá e sobre Guemilut Chassadim (Pirkê Avot 1:2), no fim dos tempos a salvação virá pelo mérito de Guemilut Chassadim, ou seja, as boas ações que fazemos uns com os outros. Talvez isso aluda ao fato de que D’us trará a Gueulá mesmo se nós não a mereçamos, em virtude do Chêssed que fazemos até para com aqueles que não merecem.

אצילות עשרה אמירות AMIDÁ
בריאה ק”ש וברכותיה SHEMÁ E SUAS BERACHOT
יצירה פסוקי דזמרה PESSUKÊ DEZIMRÁ
עשיה קרבנות KORBANOT
ברכות השחר BÊNÇÃOS MATINAIS

Os Degraus Secretos da Reza de Shacharit

“Uma escada fixada na terra que seu topo chega aos Céus”

REFAEL SAFRA

3º ano do Ensino Médio

ודוי VIDUI PERANTE D’US
ובא לציון UVÁ LETSION INTELECTUAL
שיר של יום CÂNTICO DO DIA EMOCIONAL
קטורת INCENSO PRÁTICA
עלינו לשבח ALÊNU LESHABÊACH

Uma oração que leva a pessoa dos sentimentos mais básicos ao ápice da santidade, para depois devolvê-la ao cotidiano, imbuída de novas forças!

A reza de Shacharit apresenta uma construção bem elaborada. Ela foi estruturada de forma que a pessoa inicie no nível mais básico e, gradualmente, suba até alcançar o ápice espiritual. Então, após estar perante D’us numa conexão máxima, ela desce passo a passo, trazendo a santidade conquistada para os mundos inferiores, até a vida cotidiana — que é o objetivo principal da oração.

No início, recitam-se as Birkot HaShachar (bênçãos matinais), que são agradecimentos básicos a D’us. Expressamos nossa gratidão por viver e por ter em nosso corpo uma maravilhosa máquina milagrosa!